Capítulo 244 — O Retorno de El Hermanito
Atlas Wilson
O som da grade de ferro batendo e a tranca girando ecoaram pelo corredor de concreto, selando meu destino. O ar ali dentro era denso, pesado. Cheirava a suor velho, mofo, desinfetante barato e algo metálico que eu suspeitava ser sangue seco.
Fiquei parado no meio da cela minúscula, sentindo meu coração bater contra as costelas como um prisioneiro tentando escapar. Tive que travar o maxilar, forçar meus ombros a ficarem eretos e vestir a máscara mais fria que eu tinha. Eu era Atlas Wilson. Eu negociava com tubarões em Wall Street. Mas ali... ali eu era apenas carne fresca cercada por lobos.
Olhei para o José. Ele já estava sentado no beliche inferior, parecendo estranhamente à vontade naquele inferno. A postura dele mudou. O olhar doce que ele lançava para a minha irmã tinha desaparecido, dando lugar a um vazio frio e calculista.
Respirei fundo, tentando processar a bomba que o guarda tinha soltado antes de sair.
— Tá, me explica. — quebrei o silêncio, minha voz saindo mais firme do que eu me sentia. — Você deixou ele caolho?
José, que encarava a parede de cimento como se visse o passado projetado nela, respirou fundo antes de virar o rosto para mim.
— Sim. Lembra que te contei das minhas cicatrizes? Do cara do banheiro quando eu fui preso pela primeira vez?
Assenti, a memória daquela conversa me atingindo. A história do abuso que ele sofreu, ou melhor quase sofreu.
— Então... ele é o Caolho. — José disse, a voz desprovida de emoção. — O cara que queria abusar de mim e pensou que eu não revidaria porque era apenas um moleque assustado. Ele descobriu da pior forma que eu mordo.
Soltei o ar com força.
— Puta que pariu.
José deu um sorriso sem humor.
— É, cunhadinho. Bem-vindo à selva. Ou melhor, ao inferno. Por isso que te falo: é melhor encarnar seu pior demônio aqui dentro. Se eles sentirem seu cheiro de medo, acabou.
Ficamos em silêncio por horas. José me orientou sobre tudo: nunca olhar para baixo, nunca encarar por muito tempo, caminhar ocupando espaço, nunca pedir licença. Regras de sobrevivência que eu nunca precisei usar nas minhas reuniões de diretoria, ou entre os filiados do clube.
Quando a sirene tocou, anunciando o jantar, o barulho das grades se abrindo simultaneamente foi ensurdecedor.
— Hora do show. — José levantou num pulo. — Fica perto de mim.
Saímos para o corredor. A Ala C era um formigueiro de tensão. Segui José, mantendo a cabeça erguida, ignorando os olhares e os sussurros que seguiam o "Hermanito".
No refeitório, o barulho era caótico. José guiou o caminho até uma mesa no canto. Lá, três homens nos esperavam.
— Hermanito. — Um homem negro, enorme, com cicatrizes no rosto, levantou-se. Aquele devia ser o Gigante, o contato do Snake.
— Gigante. — José apertou a mão dele e depois cumprimentou os outros dois. — Fumaça, Jack. Quanto tempo.
— Tempo demais, irmão. — Jack, um cara com tatuagens até no pescoço, respondeu. — E trouxe visita de luxo.
— Esse é o Atlas. — José me apresentou, sentando-se e indicando o lugar ao lado dele. — Ele é família. Quem mexer com ele, mexe comigo.
Sentei-me, sentindo os olhares pesarem sobre mim. A comida na bandeja parecia lavagem, mas eu sabia que precisava comer para manter as forças. Estávamos na metade da refeição quando o clima no refeitório mudou. O barulho diminuiu perto da nossa mesa.

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