Capítulo 237 — Já Sou Quebrado
José Alves
O elevador se abriu na cobertura do Atlas e o silêncio do apartamento me atingiu de forma diferente do hospital. No hospital, o silêncio era clínico, frio. Aqui, era um silêncio de ausência. Faltava a risada da Athena, a voz mandona do Atlas, a alegria da Sammy.
Assim que entramos, Georgina veio correndo do corredor. Os olhos dela estavam inchados, o avental amassado nas mãos trêmulas.
— Meninos... — A voz dela falhou. — Notícias? Por favor, me digam alguma coisa. A Athena... o meu menino Atlas...
— A Athena está bem, Gina. — Noah respondeu antes que eu pudesse falar, colocando a mão no ombro dela. — Ela está sem o tubo de respiração. Os últimos exames foram bons e ela está dormindo agora para se recuperar cem por cento.
Gina soltou um suspiro longo, levando a mão ao peito.
— Graças a Deus... Graças a Deus. — Ela fechou os olhos por um segundo, mas logo os abriu, cheios de medo novamente. — E o Atlas? O Senhor Declan disse que levaram ele...
Noah trocou um olhar rápido comigo antes de responder.
— Ele será transferido para o presídio estadual em uma hora, Gina.
A mulher cobriu a boca com a mão, um soluço escapando. Ela chorou, um choro de mãe, de quem viu aquele homem crescer. Aquilo me atingiu. Ver a dor dela foi como um espelho da dor que eu estava prestes a causar na minha irmã.
— Eu sinto muito, Gina. — Noah a abraçou, consolando-a.
Aproveitei o momento e perguntei, a voz baixa:
— Onde está a Sammy?
— No quarto, com a Senhorita Taylor. — Gina respondeu entre lágrimas.
Assenti e caminhei pelo corredor conhecido. Cada passo parecia pesar uma tonelada. Parei na frente da porta do quarto, respirei fundo para compor minha máscara de força e bati duas vezes antes de entrar.
Sammy estava sentada na cama, abraçando os joelhos. Assim que me viu, ela deu um pulo.
— José!! — Ela gritou e correu até mim, se jogando nos meus braços.
Abracei minha irmã com força, sentindo o corpo dela tremer. O cheiro dela, de casa e de infância, me invadiu.
— Como está se sentindo, meu anjo? — perguntei, afastando-me o suficiente para segurar o rosto dela e analisá-la.
— Estou bem fisicamente, mas por dentro estou um caco. — Ela confessou, os olhos vermelhos. — Você teve notícias do Atlas? E a Athena, como está?
Olhei para a Taylor, que estava encostada na janela. Nossos olhares se cruzaram. Ela sabia. O Dom já devia ter avisado. Taylor desencostou da parede, caminhou até a Sammy e deu um beijo no ombro dela.
— Vou deixar vocês conversarem a sós. Vou ver se a Gina precisa de ajuda na cozinha.
Sammy nem percebeu a troca de olhares, apenas assentiu. Assim que a porta se fechou, puxei minha irmã para sentar na cama. Passei a mão pelo rosto dela, tirando uma mecha de cabelo.
— A Athena está bem, Sammy. — comecei pela boa notícia. — Ela acordou. O Elijah disse que os exames estão bons, ela só está dormindo agora por causa dos remédios. O pior já passou pra ela.
Sammy soltou o ar, os ombros relaxando visivelmente.
— Menos mal... eu estava tão preocupada. — Ela segurou minha mão. — E o Atlas?
Respirei fundo, sentindo o gosto amargo na boca.
— Ele está na carceragem, esperando para ser transferido para o presídio estadual.
— Eu queria vê-lo... — Os olhos dela encheram de água. — Eu precisava ver ele antes dele ir, José. Dizer que eu o amo, que vamos lutar...
— Não é possível, meu anjo. — neguei suavemente. — O acesso está restrito.
Ela baixou a cabeça, derrotada. Ficamos em silêncio por um momento, até que ela me olhou, o instinto de cuidadora falando mais alto.
— Você comeu? Deve estar morrendo de fome depois desse dia horrível. — Ela se levantou num impulso. — Eu posso pedir para a Gina preparar alguma coisa, ou eu mesma faço... posso fazer aquele guacamole igual o da mamãe. Eu sei que você adora.
Sorri para ela, mas foi um sorriso triste, carregado de culpa. A simplicidade da oferta dela, querendo me alimentar no meio do apocalipse, partiu meu coração.
Puxei-a de volta gentilmente, fazendo-a sentar. Passei a mão no rosto dela, sentindo a pele macia.
— Me desculpa, Sammy. Por tudo. — falei, a voz embargada.
Ela franziu a testa, confusa.
— José, por que está se desculpando?
Segurei a mão dela com carinho, beijando os nós dos dedos.
— Por ter demorado tanto para perceber que você era o amor da minha vida, minha irmã querida. — Levei a mão dela aos lábios novamente. — Prometo que vou te provar todos os dias, enquanto eu tiver vida, o quanto eu te amo e o quanto estou arrependido de tudo que fiz no passado.
Sammy me puxou para um abraço apertado.
— Para com isso, seu bobo. Sabe que eu já te perdoei. Eu te amo muito, muito, muito. — Ela sussurrou no meu ouvido.
Aquilo doeu. Doeu mais do que um soco.
Nos separamos, e ela me olhou, os olhos semicerrados, lendo minha alma como só ela sabia fazer.
— José... qual o problema? — A voz dela tremeu. — Eu te conheço. Você está buscando palavras para falar comigo. O que aconteceu? É o Atlas? Ele se machucou?
Desviei o olhar por alguns segundos, encarando o chão, buscando coragem onde não tinha.
— O Atlas está bem... por enquanto. — Comecei, escolhendo as palavras como quem pisa em campo minado. — Mas aquele lugar, Sammy... o presídio estadual... não é seguro. Drácula pagou pela cabeça dele. Assim que ele entrar lá, vão tentar matá-lo.

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