Capítulo 234 — A Peça que Faltava
Athena Wilson
Acordei num solavanco, puxando o ar com força, como se estivesse emergindo de um afogamento. Minha última lembrança me atingiu como um soco físico: a dor de cabeça cegante, os tremores incontroláveis, o rosto do José contorcido em puro desespero e a voz do meu irmão gritando meu nome.
Depois disso... apenas névoa. Escuridão. Frio.
Tentei falar, chamar por eles, mas minha garganta parecia lixa pura.
— José... — O nome saiu apenas como um ruído, um chiado doloroso.
— Ei, calma... — Uma voz doce e feminina surgiu ao meu lado. Senti uma mão gentil no meu ombro.
Pisquei os olhos, tentando focar na luz branca. Uma enfermeira sorria para mim.
— Não force a voz agora, querida. Tiramos o tubo de respiração há poucos minutos, sua garganta vai doer um pouco. — Ela ajeitou meu travesseiro com cuidado. — Você está segura. Está na UTI, mas está estável.
Tentei processar as informações. UTI. Tubo. Meus olhos correram pelo quarto, procurando. Eu precisava dele.
— Ele está lá fora. — A enfermeira adivinhou, sorrindo com ternura. — O rapaz moreno? Ele não saiu da porta nem por um segundo. Só estava esperando você acordar. Vou chamá-lo.
Fechei os olhos por um instante, respirando fundo. Eu estava viva. Ouvi a porta abrir. O cheiro dele, uma mistura de madeira e algo cítrico, chegou antes dele.
Abri os olhos. José entrou no quarto. Ele estava lindo como sempre, mas parecia exausto. O cabelo bagunçado, a roupa amassada e os olhos... os olhos estavam vermelhos e carregados de uma dor que fez meu peito apertar. Uma dor que eu causei.
— José…
— Oi, mi amor... — ele sussurrou, correndo para o meu lado e segurando minha mão como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.
Tivemos nosso momento. Ele chorou, eu chorei. Ele me beijou com uma devoção que me fez esquecer onde eu estava. Ele me contou do medo de me perder, e eu pedi perdão por ter sido imprudente. Ali, naquela bolha, éramos só nós dois. O amor da minha vida estava ali, me segurando, me amando.
Mas conforme a névoa dos remédios ia passando, minha mente começou a clarear. E notei o espaço vazio no quarto. Atlas. Meu irmão jamais me deixaria sozinha na UTI. Ele estaria aqui, brigando com os médicos, andando de um lado para o outro, ou segurando minha outra mão.
— Falando em Atlas, onde ele está? Ele ficou bravo? Foi embora porque chamei por você e não por ele quando acordei? Meu irmão está ficando mais infantil do que eu! — tentei brincar, mas ele desviou o olhar por um segundo.
— José? O que aconteceu? O que o Atlas fez? — eu via que algo o segurava, mas insisti. — José... — chamei, a voz ainda fraca.
— Amor...
José me olhou, e vi a hesitação nos olhos dele.
— Onde está meu irmão? — insisti, o medo começando a brotar no meu estômago.
José desviou o olhar, mordendo o lábio, buscando palavras. Ele suspirou, voltando a me encarar. A dor nos olhos dele triplicou, e ele pegou minhas mãos entre as dele.
— Ele não foi embora porque quis, princesa. — José disse baixo, a voz embargada. — O Atlas... ele foi levado.
Senti o sangue gelar.
— Levado? — repeti, confusa. — Como assim levado? Sequestrado? — senti meu coração batendo na boca.
— Preso, Athena. — José soltou de uma vez, segurando minhas mãos com firmeza. — A polícia levou ele.
— O quê? — Tentei me sentar, o monitor cardíaco acelerou, apitando. — Preso por quê? José, isso não faz sentido!
— Ei, calma, olha pra mim. — Ele colocou a mão no meu rosto, me fazendo focar nele. — É uma armação. Estão acusando ele do assassinato do seu pai e da amante.
O ar saiu dos meus pulmões.
— Eu não entendo, meu irmão ele… ele é inocente, não foi ele, foi o… — Engoli o nome do homem que matou meu pai.
— Eu sei que foi o David, amor. E foi ele também quem denunciou seu irmão.
David. O homem que meu irmão ajudou, estendeu a mão, que vingou minha mãe como se fosse um salvador.
— O David? — sussurrei.
— Sim. É coisa dele. — José confirmou. — Mas escuta, nós já estamos agindo. O Dominic assumiu o caso, a Corregedoria está em cima. Nós sabemos onde o David está escondido.

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