Capítulo 233 — O Olho do Furacão
José Alves
Seguir aquela enfermeira pelo corredor da UTI parecia a caminhada mais longa da minha vida. Minhas mãos suavam, meu coração batia descompassado contra as costelas e, por um segundo, o medo de entrar naquele quarto e descobrir que era um sonho me paralisou.
Mas não era sonho. Quando a enfermeira abriu a porta de vidro do Box 3, o som rítmico do monitor cardíaco preencheu meus ouvidos. Não era o apito frenético de emergência de horas atrás. Era um som constante. Calmo. Vivo.
E lá estava ela.
Athena estava com a cabeceira levemente elevada. Ainda pálida, ainda cheia de fios, mas os olhos... aqueles olhos castanhos que iluminavam a minha escuridão estavam abertos. Cansados, pesados, mas abertos.
Assim que ela me viu, um sorriso fraco, quase imperceptível, curvou os lábios dela.
— José... — A voz dela saiu num sussurro rouco, arranhada pelo tubo que tinham acabado de tirar.
Meus joelhos cederam. Corri para o lado da cama, ignorando a cadeira, e segurei a mão dela como se fosse a única âncora no mundo.
— Oi, mi amor... — Minha voz falhou, embargada pelo choro que eu estava segurando desde o momento em que a vi convulsionar no carro. — Oi, minha princesa.
Levei a mão dela aos meus lábios, beijando os dedos, a palma, o pulso onde o acesso venoso estava preso. Eu precisava sentir a pele morna. Precisava ter certeza de que ela estava ali.
— Você está chorando... — ela sussurrou, levantando a mão com dificuldade para tocar meu rosto.
Fechei os olhos ao sentir o toque dela. Acariciei o rosto dela com a minha mão livre, contornando a bochecha, o queixo, decorando cada detalhe como se fosse a primeira e a última vez.
— Eu pensei que ia te perder, mi amor. — confessei, deixando as lágrimas caírem livremente. — Quando você fechou os olhos no carro... quando o médico disse que seu coração estava parando... meu mundo parou junto, princesa. Eu morri um pouco ali naquele corredor.
Athena me olhou com ternura, os olhos marejados.
— Desculpa... — ela disse, uma lágrima escorrendo pelo canto do olho. — Eu não queria te assustar. Eu fui irresponsável com os remédios... me perdoa.
— Ei, shhh... — Sequei a lágrima dela com o polegar. — Não pede perdão. Só promete que nunca mais vai fazer isso comigo. Eu não funciono sem você, Athena. Eu sou só um cara quebrado tentando acertar, mas com você... com você eu sou inteiro.
Ela sorriu, aquele sorriso que fazia eu me sentir o homem mais rico do mundo, mesmo não tendo um tostão no bolso comparado ao Blake ou ao Wilson.
— Eu te amo, José. — ela declarou, a voz firme apesar da fraqueza. — Eu te amo tanto...
Não aguentei. Inclinei-me sobre a cama, com todo o cuidado do mundo para não esbarrar nos fios, e colei meus lábios nos dela. Não foi um beijo de desejo ou luxúria. Foi um beijo de adoração. Um beijo de alívio. Nossas bocas se moveram devagar, saboreando o fato de estarmos respirando o mesmo ar. Senti o gosto de vida nela.
Afastei-me milímetros, mantendo nossas testas coladas, respirando o mesmo ar que ela.
— Eu te amo mais do que a minha própria vida, mi amor. — jurei, olhando no fundo dos olhos dela. — Eu faria qualquer coisa, iria até o inferno e voltaria, só para ver esse sorriso.
Ficamos ali por um momento, perdidos na bolha da nossa existência. Só eu e ela. Sem polícia, sem a porra do maldito do David, sem prisão. Apenas José e Athena.

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