Capítulo 229 — Peças no Tabuleiro
Dominic Costello
O silêncio na sala era quebrado apenas pela respiração descompassada do Smith. Ele olhava para mim como se visse um fantasma, ou pior, o fim da sua carreira e liberdade estampados no meu rosto.
— Corregedoria... — ele sussurrou, engolindo em seco. — Dom, escuta, nós somos colegas há anos...
— Não somos colegas, Smith. — cortei, ríspido. — Colegas não vendem distintivos. Agora fala. O que o Natanael Blake queria? E não me venha com a história do assistente, porque eu sei que é mentira.
Smith passou a mão pelo rosto suado, tentando ganhar tempo, mas percebeu que não tinha para onde correr.
— Ele... ele sabia sobre o mandado de prisão para o Atlas Wilson. — Smith confessou, a voz trêmula. — Ele disse que era um grande amigo do pai do Atlas, o Ronald. Disse que estava indignado com a demora da justiça e queria garantir que o assassino do amigo pagasse.
— Indignado com a demora? — Soltei uma risada sarcástica. — E como exatamente o Natanael sabia que o homicídio pelo qual o Atlas responde é o do pai dele? Essa informação estava sob sigilo absoluto até o cumprimento do mandado, Smith.
O Chefe de Polícia abriu e fechou a boca, sem resposta.
— Eu... eu não sei. Ele só chegou aqui exigindo justiça. Ele queria garantir que o Atlas fosse preso hoje, sem fiança, e transferido imediatamente. Ele disse que tinha influência, que podia facilitar as coisas... eu só mexi uns pauzinhos por respeito ao Senhor Blake.
— Respeito. — repeti a palavra com nojo. — Vamos analisar esse "respeito". O pedido de transferência para o presídio estadual saiu praticamente no mesmo minuto que o mandado de prisão foi assinado. Isso não é eficiência, Smith. Isso é premeditação.
Dei um passo à frente, encurralando-o contra a própria mesa.
— O Natanael não veio aqui por amizade. Ele veio para supervisionar o serviço. Veio garantir que o dinheiro que ele te ofereceu comprasse o resultado que ele queria.
— Não! Não teve dinheiro! — Smith gritou, mas seus olhos desviaram instintivamente para a gaveta trancada da mesa.
Foi o erro dele.
Levei a mão à cintura e saquei minha arma. O movimento foi fluido, treinado. Apontei o cano direto para o peito dele.
— VOCÊ FICOU LOUCO? — Smith gritou, recuando até bater as costas na parede. — Você não pode apontar uma arma para um Chefe de Polícia!
— Eu posso fazer o que eu quiser quando estou diante de um criminoso em flagrante. — Engatilhei a arma, o som metálico ecoando na sala pequena. — Abre a gaveta.
— Dom, por favor...
— ABRE A PORRA DA GAVETA! — rugi.
Tremendo, Smith esticou a mão, pegou a chave no bolso e destrancou a gaveta central. Lá estava. Um envelope pardo, grosso, estufado.
Não precisei abrir para saber o que era. Notas não rastreáveis. O preço da liberdade do meu melhor amigo.
Com a arma ainda apontada, peguei meu celular com a outra mão e disquei um número rápido.
— Freeman. Sou eu. — falei assim que meu agente atendeu. — Estou na sala do Chefe Smith na Central. Tenho uma situação de corrupção ativa e passiva envolvendo o comando da delegacia e interferência em caso federal. Traga uma equipe. Agora.
— Dez minutos, Chefe. — Freeman respondeu, eficiente como sempre.
Desliguei e olhei para o Smith.
— Senta ali. — apontei para a cadeira no canto. — E se você se mexer, eu juro que te dou um motivo pra se aposentar por invalidez.
Enquanto esperava, liguei para o Coletti.
— Chefe? — Coletti atendeu no primeiro toque.
— Como estamos com o José?
— Tudo certo. Ele já está cadastrado no sistema como informante nível 1. A transferência foi aprovada e anexada ao processo do Atlas. Eles vão juntos.

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