Capítulo 226 — Irmãs de Alma
Samantha Jones
O som da sirene se afastando parecia levar minha alma junto. Eu estava de joelhos no asfalto frio, o cheiro de pneu queimado e desespero impregnado no ar. Meus braços pareciam vazios sem ele, e meu ventre contraía, não de dor física, mas de puro medo.
— Sammy... — A voz do José veio de cima, rouca e embargada. — Levanta, anjo. Por favor.
Senti as mãos dele nas minhas axilas, tentando me erguer, mas minhas pernas eram feitas de chumbo. Eu não queria levantar. Eu queria ficar ali até ele voltar.
— Eu preciso ir atrás dele. — murmurei, o gosto de sal na boca. — Me leva para a delegacia, José. Agora!
— Sammy, escuta... — Ele se ajoelhou na minha frente, segurando meu rosto. — Você não pode ir pra lá. Você precisa descansar. Vai pra casa com o Declan e a Jenny. Eu fico aqui esperando a Athena acordar.
— Não! — Gritei, empurrando as mãos dele. — Eu não vou pra casa! Eu quero o meu noivo! Quero o pai do meu filho! Eu quero ver ele!
— Samantha... — Dominic se aproximou, a expressão fechada de dor, mas a voz firme de autoridade. — Você não pode ir para a delegacia agora. É um circo lá fora. Com certeza alguém já avisou à imprensa. Atlas é um empresário bem-sucedido, e essas pessoas adoram esse tipo de espetáculo. — Dom olhou bem dentro dos meus olhos. — Ver você lá, nesse estado... só vai fazer o Atlas sofrer mais. Ele precisa saber que você está segura e calma.
— Calma? — Soltei uma risada histérica. — Ele foi preso, Dominic! Como você me pede calma?
Jenny se aproximou, tentando pegar minha mão.
— Amiga, vem... vamos sair desse frio.
— Por favor, só me deixem ir até lá! — Me encolhi, abraçando minha barriga. Penelope tentou falar algo doce, mas a voz dela se perdeu no zumbido dos meus ouvidos. Eu estava me afogando dentro de mim mesma e eles… eles pareciam não notar, não entender.
Até que uma mão firme tocou meu ombro. Não era delicada, nem hesitante. Levantei os olhos e encontrei os da Taylor. Ela não estava chorando. O rosto dela estava marcado pela dor da perda recente dela, mas os olhos... os olhos eram de aço.
— Ei. — Ela disse, com aquele jeito direto, meio cru, que eu aprendi a admirar. — Olha pra mim, Samantha.
Eu olhei.
— Ninguém aqui vai dizer que vai ficar tudo bem, porque agora tá uma merda. — Ela falou, ignorando os olhares chocados das outras meninas. — Seu noivo foi levado. Sua cunhada tá na UTI. E você tá aqui, no chão, gritando.
Ela se agachou, ficando na minha altura.
— Mas gritar não vai trazer ele de volta agora. O que vai trazer ele de volta é a gente se manter de pé. Você confia em mim?
Engoli o choro, fungando. Havia algo na força bruta da Taylor que me ancorava.
— Confio.
— Então levanta essa bunda daí. — Ela estendeu a mão. — Você vem comigo. Vamos pra sua casa, vamos tomar um banho e vamos esperar. Porque se o Atlas souber que o filho dele tá em risco porque você ficou aqui tomando friagem, ele derruba aquela cela.
Assenti, derrotada, mas convencida. Segurei a mão dela e me deixei ser puxada. Taylor passou o braço pela minha cintura, sustentando meu peso.
— Dom. — Ela chamou, sem olhar para trás. — Eu vou com ela pra casa.
— Tudo bem amor. — Dominic respondeu. — Eu vou acompanhar o Atlas. Preciso resolver os próximos passos.
Assim que ele disse isso, vi o olhar dele cruzar com o do José. Não foi um olhar normal. Foi carregado, pesado. Havia um entendimento mudo ali, uma troca de segredos que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem. José assentiu, quase imperceptivelmente, e Dominic engoliu em seco.
— O que foi isso? — perguntei, virando-me para o meu irmão. — José?
José forçou um sorriso, beijando o topo da minha cabeça.
— Não é nada, anjo. Coisa nossa. Vai com a Taylor. Eu cuido da Athena aqui.
Não acreditei nele. Mas eu não tinha forças para discutir. Entrei no carro da Penelope com a Taylor, e o mundo lá fora virou um borrão de luzes e sombras até chegarmos ao meu prédio.
Assim que entramos na cobertura, o silêncio gritou. Gina estava na sala, segurando um terço, os olhos inchados. Quando ela me viu sozinha, sem o "garoto dela", ela desabou.
— Oh, minha menina... — Ela veio até mim, me abraçando com aquele amor maternal que só ela tinha por mim, pelo Atlas e pela Athena. — Eles levaram ele? Levaram meu menino?
— Levaram, Gina... — Chorei no ombro dela. — E a Athena...
— Eu sei, o Senhor Reed ligou. — Ela chorava copiosamente. — Minha garotinha no hospital e meu menino na cadeia. O que fizeram com essa família, meu Deus?
Ver a Gina assim quase me destruiu de vez. Taylor percebeu e interveio suavemente.
— Gina, prepara um chá pra ela? Bem forte? Eu vou levar ela pro quarto.
Gina assentiu, limpando o rosto com o avental e correndo para a cozinha, grata por ter uma tarefa.
Taylor me guiou até o meu quarto. O cheiro do Atlas ainda estava ali, nos lençóis, nas roupas jogadas na poltrona. Lembrei da nossa noite, gostosa, intensa como ele, mas ao mesmo tempo carregada de carinho e amor. Senti minhas pernas cederem de novo, mas Taylor me colocou na cama, tirou meus sapatos e me cobriu. Para minha surpresa, ela não saiu. Ela tirou os próprios tênis e deitou ao meu lado, olhando para o teto.
Ficamos assim por um tempo. O silêncio não era constrangedor; era compartilhado.
— Eu me sinto culpada. — Taylor sussurrou de repente.

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