Capítulo 221 — Nem eu
José Alves
O mundo lá fora era um borrão, mas dentro do carro, o silêncio era ensurdecedor. Atlas dirigia como um maníaco, cortando o trânsito, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante.
Eu não conseguia manter meus olhos nele, nem na estrada. Meu foco era ela.
— Mi amor… — chamei, mas não tive resposta. Pressionei meus lábios nos dela e ela não reagiu.
— Ela acordou, José? — O grito do Atlas, carregado de pânico e daquela raiva habitual que ele reservava para mim, chamou minha atenção.
— Não, ela não responde e tá gelada pra caralho! — respondi, sentindo minha garganta fechar. — Por que diabos ela não acorda? — Passei a mão na testa dela; o suor frio e pegajoso cobria a pele, colando os fios de cabelo em seu rosto pálido.
— Três dias. — ele disse, a voz vacilante. — Há três dias ela está sem remédios e não me contou.
A voz dele estava mais branda agora, e havia um pouco de culpa nela também.
— A Sammy me disse sobre a doença dela, e a Athena me contou uma coisa ou outra. Mas eu nunca soube direito. O que esses remédios fazem?
— Minha irmã tem insuficiência hepática crônica. Ela faz uso de corticoides e imunossupressores para tratar uma hepatite autoimune. — Ele parou em mais um semáforo que estava só atrasando nossa vida e se virou para me encarar, os olhos arregalados de medo. — Sem a proteção dos imunossupressores, o sistema imune volta a atacar o fígado. E se ela para o corticoide de uma vez... o corpo entra em colapso.
O carro voltou a andar. Na verdade, Atlas corria tanto que o carro parecia voar. Foi aí que senti o primeiro tremor. Não foi um movimento suave. Foi um espasmo violento. Os olhos dela se abriram, mas ela não estava me vendo.
— Princesa… — chamei, sacudindo levemente os ombros dela.
Os olhos dela reviraram, mostrando apenas o branco, e a boca se contorceu num esgar horrível.
— Dios, Dios, Dios… — comecei a clamar em desespero. — ACELERA ESSA PORRA!!! — gritei.
— O que tá acontecendo? — Atlas berrou, olhando pelo retrovisor.
— Ela tá convulsionando! — O terror me invadiu, frio e absoluto.
Eu não sou médico, não sabia o que fazer, então fiz a única coisa que meu instinto permitiu. Abracei o corpo dela com força, como se pudesse impedir fisicamente que a vida escapasse dali. Segurei o rosto dela entre minhas mãos, sentindo os tremores passarem para o meu próprio corpo.
— Não faz isso comigo... — As lágrimas desceram quentes pelo meu rosto, pingando na bochecha fria dela. — Por favor, princesa. Não me deixa. Eu não sei mais respirar sem você. Não me deixa...
Eu a apertei contra mim, beijando o topo da cabeça dela, balbuciando promessas desconexas, orações para um Deus que eu raramente procurava, porque caras como eu não merecem a atenção dele. Mas ela merecia. Ela merecia tudo.
— ATLAS!! — gritei, sentindo o corpo dela relaxar de forma antinatural nos meus braços após a convulsão.
Pelo espelho retrovisor, vi os olhos dele encontrarem os meus. Eu esperava o desprezo de sempre. Mas ele não disse nada. Pela primeira vez, o olhar dele sustentou o meu sem ódio. Ele viu minhas lágrimas. Viu minhas mãos trêmulas segurando ela. Viu que o medo que corria nas minhas veias era o mesmo que corria nas dele.
Ele engoliu em seco, desviou o olhar para a estrada e pisou fundo no acelerador.
— Estamos chegando, José. — a voz dele saiu rouca, sem a aspereza de antes.
O carro mal tinha parado na entrada de emergência e eu já estava com a porta aberta. Atlas gritava alguma coisa para os seguranças, mas o som da voz dele parecia distante, abafado pelo zumbido nos meus ouvidos.
Eu a puxei do banco, o peso morto do corpo dela nos meus braços sendo a coisa mais aterrorizante que já senti.
— Alguém me ajuda! — gritei, minha voz quebrando no saguão branco e gelado. — Ela não está respondendo!
Uma equipe de enfermagem correu na nossa direção com uma maca. A transferência foi brutal e rápida. No momento em que a colocamos sob as luzes fluorescentes do corredor, a realidade da doença dela me atingiu como um soco. A pele dela não estava apenas pálida; sob aquela luz, havia um tom amarelado sutil, mas inconfundível, nos cantos dos olhos. Icterícia.
— O que aconteceu? — O médico perguntou, parando ao lado da maca e acendendo uma lanterna nas pupilas dela.
— Insuficiência hepática crônica — disparei, correndo ao lado da maca enquanto empurravam ela para a Sala Vermelha. Atlas vinha logo atrás, ofegante. — Ela toma imunossupressores e corticoides, mas acho que ela parou de tomar há uns três dias. Ela desmaiou e teve uma convulsão no carro.
O médico parou por um segundo, processando a informação.
— Parou o corticoide abruptamente? — ele me perguntou, mas foi o Atlas quem respondeu.
— Sim, o laboratório atrasou a entrega. Está três dias sem.
O olhar do médico mudou de preocupado para alarmado em um segundo.
— PREPAREM HIDROCORTISONA E GLICOSE 50% AGORA! ELA DEVE ESTAR EM CRISE ADRENAL E HIPOGLICEMIA SEVERA. VAMOS, RÁPIDO! — ele gritou para uma das enfermeiras.

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