Capítulo 216 — Especial porque é você
José Alves
Eu mal tive tempo de sentir a falta do calor do corpo dela quando o Hernandes soltou uma risada debochada ao meu lado.
— Limpa a baba, cara. Tá escorrendo. — ele zombou, virando a garrafa de cerveja. — Você tá parecendo um adolescente apaixonado. É até vergonhoso para a classe.
— Cala a boca. — respondi, sem tirar os olhos do corredor por onde Athena tinha desaparecido com a Kelly. — Você tá com inveja porque a minha garota é a mulher mais incrível desse bar.
— Inveja eu tenho é da sua conta bancária depois que casar com ela. — ele riu, desviando de um tapa que tentei dar na nuca dele.
Eu ia retrucar que dinheiro era a última coisa que me importava quando se tratava da Athena, mas um perfume doce e enjoativo invadiu minhas narinas antes mesmo da pessoa chegar.
Travei o maxilar. Eu conhecia aquele cheiro barato.
— José... — A voz melosa soou atrás de mim.
Virei-me devagar, já com a paciência no limite. Destiny estava parada ali, num vestido que parecia ter sido pintado no corpo, com aquele sorriso de quem achava que ainda tinha algum passe livre na minha vida.
— Destiny. — cumprimentei seco. — O que você quer?
— Nossa, que agressividade... — Ela fez bico, aproximando-se mais do que o necessário. — Só vim dar um oi. Faz tempo que você não aparece, papi. Estou com saudades do seu... jeito.
— Eu não estou. — cortei, desviando o olhar. — E eu estou acompanhado.
— Acompanhado? — Ela soltou uma risadinha descrente, dando um passo à frente. — Ah, qual é, José... eu vi ela saindo, aquela bonequinha aguada. Ela não dá conta de um homem como você. Você precisa de uma mulher de verdade.
Antes que eu pudesse mandá-la para o inferno, ela se inclinou. O decote exagerado entrou no meu campo de visão como um outdoor de desespero, e ela sussurrou perto do meu ouvido:
— Vamos sair daqui... eu faço aquele truque que você gosta...
Senti as unhas compridas dela arranharem minha nuca, descendo para o pescoço. O toque me causou repulsa imediata. Segurei o pulso dela com força, arrancando a mão dela de mim como se fosse um inseto peçonhento.
— Tira a mão de mim. — rosnei, a voz baixa e perigosa. — Eu não estou interessado, Destiny. Vaza.
Ela abriu a boca para protestar, mas congelou.
De repente, um braço fino e firme rodeou minha cintura. Um corpo quente e cheiroso colou na minha lateral, e uma mão delicada pousou no meu peito, possessiva, marcando território com uma autoridade que me deixou atordoado.
— Tudo bem? — A voz da Athena soou doce, mas carregada de veneno. — Prazer, Athena. Namorada do José.
Eu tive que morder a bochecha para não sorrir. Namorada. A palavra saiu da boca dela com tanta naturalidade e força que meu coração falhou uma batida.
Destiny olhou para a Athena, depois para a Kelly que parou ao lado dela com os braços cruzados e cara de poucos amigos, parecendo uma segurança de boate.
— Ah... entendi. — Destiny murmurou, recuando, percebendo que tinha perdido feio. — Felicidades ao casalzinho.
Ela deu meia-volta e saiu rebolando, batendo o pé.
Assim que ela sumiu na multidão, não esperei nem um segundo. Girei o corpo, lacei a cintura da Athena com meu braço e a puxei contra mim, tomando a boca dela num beijo faminto. Eu queria que ela sentisse. Queria que ela soubesse que nenhuma outra mulher chegava aos pés dela.
— Procurem um quarto, pelo amor de Deus! — Hernandes gritou, jogando um guardanapo de papel na gente.
— Cala a boca, Hernandes! — respondi contra a boca da Athena, sem soltá-la.
Afastei meu rosto apenas alguns milímetros do dela, roçando nossos narizes. Os olhos dela brilhavam, uma mistura de adrenalina e desejo que me deixava louco.
— Namorada, é? — sussurrei, provocando.
Athena sorriu, aquele sorriso presunçoso que ela herdou do irmão, e puxou a gola da minha camiseta, trazendo meu rosto para mais perto ainda.
— Exatamente. — ela decretou, os olhos fixos nos meus. — Você agora é meu, José.
O tom possessivo dela fez meu sangue ferver. Eu estava adorando esse jeito dela.
— Princesa... — Rocei meus lábios nos dela. — Eu sou seu desde a primeira vez que eu te vi.
Beijei-a de novo, selando aquela promessa silenciosa.
Ficamos mais um tempo ali, rindo com o pessoal, a mão dela na minha coxa o tempo todo, mas o clima tinha mudado. A tensão entre nós era elétrica. Quando todos decidiram encerrar a noite, senti um alívio. Eu precisava ficar sozinho com ela.
Caminhamos até o carro dela. Bob estava encostado no capô, discreto como sempre.
Athena parou e jogou a chave para mim.
— Você dirige.
Peguei a chave no ar, surpreso.
— Para onde, chefa? Para sua casa?
Ela me olhou, mordendo o lábio inferior de um jeito que quase me fez perder o juízo ali na calçada.
— Para a sua casa. — ela respondeu.
Sorri, sentindo a expectativa crescer no meu peito.
— Como quiser, princesa.
A viagem para o Brooklyn foi uma tortura deliciosa. Eu dirigia com uma mão no volante e a outra entrelaçada na dela sobre o console. O trânsito de Nova York nunca foi tão bem-vindo; a cada sinal vermelho, eu a puxava para um beijo, provando a boca dela, sentindo a ansiedade vibrar na pele dela.
Quando estacionei na frente do meu prédio, desliguei o motor e o silêncio caiu sobre nós. Olhei para ela. Linda. Rica. Uma Wilson sentada no banco do passageiro do meu mundo simples. Achei que ela ia me dar um beijo de boa noite e pedir para o Bob acompanhá-la de volta para a cobertura luxuosa dela. Achei que a noite acabava ali.
Até que ela me olhou com um brilho malicioso nos olhos.
— Não vai me convidar para entrar?

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