Capítulo 213 — O problema ainda está aqui.
Noah Blake
Saí do quarto desolado. Ver o Heitor naquela cama e a Juliet quebrada daquele jeito mexeu com toda a minha estrutura.
Precisava falar com alguém. Precisava entender o que tinha acontecido. Dominic estava lidando com a dor da Taylor e a perda do bebê; não poderia jogar mais isso nas costas dele. Christopher estava em êxtase com o milagre da gravidez da Penelope; seria injusto demais atrapalhar isso. Atlas tinha que lidar com seus problemas, que não eram poucos, e ainda com a reabertura do clube hoje.
Só me restou…
— Blake? O que houve? Cece ligou para a Diva em desespero. — A voz de Declan veio urgente pelo telefone antes mesmo de eu dizer "alô".
— Heitor… — suspirei, encostando na parede fria do corredor do hospital. — Ele tomou os remédios da Cece, cara. Como eu não vi isso chegando?
— Tem coisas que nós não vemos, irmão. São tipo um tsunami: elas surgem do nada quando o mar parece calmo.
— Eu sei que tem coisa aí, eu sinto isso. Meu filho só tem sete anos, ele não decidiu isso sozinho. Declan, eu sei que não. — Meu desespero, meu medo, tudo isso era real demais.
— O que você acha que pode ser?
— Na época das fotos, Juliet me contou algumas coisas do passado dela. Heitor foi tão forte e corajoso pra idade dele... ele viu tanto, suportou tanto.
— Ele é um guerreirinho — Declan disse com dor, mas com orgulho também.
— É isso, meu garoto é um guerreiro. Agora me diz, como um menino forte desses desiste assim? Não faz sentido.
— Noah, essas coisas nunca fizeram sentido. O que você precisa agora é se recompor, deixar de lado todo e qualquer julgamento. Ele é só uma criança e precisa de apoio incondicional.
— Eu sei — respondi sem hesitar. — E meu filho terá tudo o que precisar para ficar bem.
— Você quer que a Jen e eu vamos aí? Ficar com vocês, dar uma olhada no garoto?
— Não precisa, irmão, obrigado. O que preciso é que vá para a Paradise ajudar o Atlas.
— Pode deixar. Passamos aí mais tarde então, depois do clube. Minha pequena está surtando aqui de vontade de ver a Ju.
— Combinado. Vejo vocês depois.
Encerramos a ligação. Fui até a máquina automática, peguei um café preto pra mim, um chá para minha mulher e um chocolate quente que meu garoto adorava. Entrei no quarto com os copos na mão. Ambos dormiam. Heitor respirava suavemente, o rostinho ainda pálido contra o travesseiro branco. Juliet estava debruçada sobre a cama, com a cabeça na mão do nosso menino, olhos fechados, mas a expressão era de dor. De tempos em tempos, ela soltava alguns soluços involuntários, resquícios do choro.
Senti meu celular vibrar no bolso. Deixei os copos sobre a mesinha do quarto e saí rapidamente para não acordá-los.
— Dom?
— Noah, Declan me contou. Como está o menino?
— Melhor. O susto passou, mas o problema ainda está aqui.
— Pedi para o Coletti me enviar as imagens de segurança da escola das crianças — ele começou direto ao ponto, a voz profissional. — Você sabia que o George tem aparecido por lá?
Uma fúria fria e assassina me tomou. Segurei o aparelho com tanta força que o plástico estalou.
— Como é que é? — rosnei. — Por que o Gayer não me contou sobre isso?
— Porque o cretino conseguiu ficar nos pontos cegos da segurança física, mas ele não pôde se esconder das câmeras de trânsito da rua.
— Maldito. — A raiva pulsava nas minhas têmporas. — Eu quero ele longe dos meus filhos.
— Não é tão simples assim, irmão.
— Claro que é! — rebati, a voz subindo uma oitava. — Quero esse homem longe, ou eu vou enterrá-lo tão fundo que ninguém nunca mais vai achar.
— É duro o que vou dizer, Noah, mas ele ainda é o pai.
— Pai? — perguntei, incrédulo. — Isso é tudo que aquele lixo não é.
— Eu te entendo, isso me revolta tanto quanto revolta você. Mas no papel, perante a lei, ele ainda é o pai biológico.
Aquelas palavras doeram como um soco. Doeu mais ainda lembrar a forma como Heitor me chamou mais cedo. “Papai Noah.” Meu menino me via como pai, mas no fundo, a presença do George deve ter confundido a cabeça dele. Aquele homem era um cretino, ordinário, mas o sangue dele ainda corria nas veias do garoto.

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