Capítulo 208 — O Peso das Escolhas
Christopher Lawson
Eu estava inquieto. A sensação ruim no meu estômago não passava desde que forcei minha encrenca a ir ao médico. Ela estava pálida, enjoada, e a teimosia dela só servia para mascarar o medo. Eu sabia disso. Eu a conhecia melhor do que a mim mesmo.
— Ainda não consegui descobrir o motivo do velho ter ido para Londres e ainda ter deixado a Marcela para trás — a voz do Dominic cortou meus pensamentos.
Ele estava sentado na cadeira à frente da minha mesa, girando um pendrive entre os dedos com aquela destreza de quem poderia invadir o Pentágono em cinco minutos.
— Não foi por diversão, senão a teria levado — respondi, recostando-me na minha cadeira de couro e encarando o teto do escritório. — Até onde sabemos, o senhor Blake nunca faz nada sem um motivo. Ir para Londres agora, justo quando as coisas parecem calmas... é estranho.
— Qual motivo alguém teria para fazer mal ao próprio sobrinho? — Dom perguntou, indignado. — E sobre a Marcela, isso me intrigou mais do que a viagem.
— Noah disse que ele não costuma se afastar dela — falei, ainda com os olhos presos no teto.
— Pensei na possibilidade dela estar envolvida nisso tudo — Dominic disse com certa convicção. — E se ela está envolvida, ficou para vigiar algo... ou alguém.
— Ou ele foi resolver algo que não queria que ela visse — bufei, passando a mão pelo rosto.
Encarei o Dom, que parou de girar o pendrive. O olhar dele ficou distante, calculista.
— Essa é a pista — ele disse. — Marcela. É ela quem vai nos dizer. Se ela estiver com ele nessa, conseguimos as informações. Se não estiver, teremos uma isca.
Eu ia responder, mas o celular do Dom vibrou sobre a mesa. Ele olhou para a tela e a postura relaxada sumiu instantaneamente.
— É a Mia. — Ele atendeu rápido, levantando-se. — Oi... Calma. O que minha mãe tem?
Observei meu amigo. Dom carregava o peso do mundo nas costas: tinha o departamento, os nossos problemas que agora se tornaram dele, e ainda tinha a mãe, que por mais querida que fosse, tinha suas limitações e necessitava de cuidados. Ele ouviu por alguns segundos, assentiu e desligou.
— Preciso ir, Chris. Parece que minha mãe teve uma crise, a Mia não está conseguindo acalmá-la. E por algum motivo minha mulher saiu, e eu nem sabia disso.
— Vai — ordenei, apontando para a porta. — Qualquer coisa me liga.
Assim que a porta bateu atrás dele, o silêncio voltou a reinar no escritório, mas durou pouco. Meu próprio celular tocou. Olhei para o visor e senti um aperto no peito.
Oliver.
Respirei fundo antes de deslizar o dedo.
— Fala, campeão. Intervalo do treino?
— E aí, mano. — A voz do Oliver estava ofegante, provavelmente tinha acabado de sair do campo. — É, o técnico deu quinze minutos. Como estão as coisas aí?
— Estão andando. A oficina está cheia, estamos vendendo carro que nem água. Tô no céu.
Falei e nós dois rimos.
— Meu mano adora dinheiro — ele disse com um sorriso na voz. — E a Penny?
— Ela... — Hesitei. — Ela está no médico agora. Sammy e Athena foram com ela.
— Médico? Ela está doente? — A preocupação na voz dele foi genuína. Oliver aprendeu a amar Penelope como uma irmã.
— Está cada vez mais teimosa, isso sim. Passou mal a semana toda e se recusou a ver o Elijah. Tive que dar um jeito nela hoje de manhã. — Um sorriso involuntário surgiu nos meus lábios ao lembrar das palmadas na bunda dela. — Mas deve ser só uma virose ou estresse. Estou esperando notícias.
Houve um silêncio do outro lado da linha. Eu conhecia aquele silêncio. Oliver queria perguntar algo, mas estava sem coragem.
— Pergunta logo, Olie — disse, impaciente.
Ele suspirou, derrotado.
— Como está a Athena?
Fechei os olhos, massageando as têmporas. Lá vamos nós.
— Eu vi uma foto... — Oliver continuou, a voz ficando mais baixa, dolorida. — O I*******m dela. Ela estava num bar semana passada. O José estava lá. Eles pareciam... próximos. Havia outras pessoas, mas sei lá, ela e o José chamaram minha atenção.
— Oliver...
— Ela quase não fala mais comigo, mal responde minhas mensagens. É só "bom dia", "boa noite". O que está acontecendo aí, Chris?
Olhei para nossa foto sobre a minha mesa. Eu e meu irmão. Nós praticamente éramos um só, protegíamos um ao outro. Mas proteger também significava dizer a verdade, por mais que doesse.
— Eles se tornaram amigos, Oliver — comecei, escolhendo as palavras, mas sem amaciar demais. — Desde que você foi embora, o José tem estado por perto. O Atlas comentou que toda sexta eles saem com o pessoal do trabalho dele. Na segunda, ela estava com a Sammy no apartamento dele. Atlas está puto com isso.
— Eles estão juntos? — A pergunta saiu rasgada.
Eu não queria magoar meu irmão, Oliver é como um filho pra mim. Eu vi esse moleque crescer, limpei os joelhos ralados dele, ensinei ele a dar seu primeiro arremesso. Mas eu também o vi fazer uma escolha.
— Olie, vocês dois já não estão mais juntos — disse, firme. — Você está em outro continente. Só esquece isso. Foca na sua carreira.
— Eu sei, mano, mas é que... eu achei que ela ia esperar. Eu achei que a gente tinha tempo.
— Não tem "mas" — interrompi, engrossando a voz. — Foi opção sua não levá-la com você. Eu te disse, Oliver. Eu te disse naquela cozinha, antes de você embarcar: "Leva a garota. Se virem, tentem, façam acontecer. Mas não se separem, fiquem juntos". Você se recusou. Você escolheu deixá-la aqui, seguir sua carreira e ver o depois.
— Eu pensei no melhor para ela, não queria ela aqui sozinha, Chris. Meus horários são doidos, corridos, e o campeonato começa em duas semanas.
— Bom, você quis o melhor. E agora ela está vivendo o melhor sem você. — Soltei a bomba, porque precisava ser dito. — Vou ser sincero com você, maninho, porque eu te amo pra caralho. Se eles não estão juntos ainda, estarão em breve. Os dois vivem grudados agora. O José protege ela, faz ela rir. É questão de tempo.
Ouvi a respiração pesada dele do outro lado. Eu sabia que ele estava segurando o choro.
— Dói, eu sei — suavizei o tom. — Mas você é um Lawson. Assuma suas responsabilidades. Você fez sua escolha, agora deixe ela fazer as dela.
— É... eu sei. — A voz dele falhou. — Tenho que voltar pro treino. Manda um beijo pra Penny. Avisa quando souber o que ela tem.
— Aviso. Se cuida, moleque.
Desliguei, sentindo o gosto amargo na boca. A vida era uma merda às vezes. Mas eu não tive tempo para lamentar o coração partido do meu irmão, porque meu celular apitou com uma mensagem. E foi logo dela. Athena.
“Shopping Downtown. Praça de alimentação. AGORA. Se demorar, a Penny disse que compra um pônei.”
Franzi a testa. Shopping? Se elas estavam no shopping, significava que Penny não estava morrendo de uma doença rara.
Peguei as chaves do carro e saí, xingando baixo.
Meia hora depois, encontrei as três paradas na entrada principal do shopping. Sammy e Athena pareciam cúmplices de um crime, e Penelope... bem, Penelope estava radiante.

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