Capítulo 206 — Tempestade lá fora
Atlas Wilson
Eu estava furioso. Além de Samantha discutir comigo por causa do José, ainda se enfiou no apartamento dele junto com minha irmã. Minha vontade era de ir até lá e trazer as duas amarradas, mas Noah me convenceu a deixar a raiva passar e conversar com ambas no momento em que eu estivesse mais calmo.
A noite caiu e nada delas aparecerem. Liguei para o Bob, que me disse que eles haviam pedido pizza e que José convidou até mesmo ele para comer. Me contou que ele aceitou o convite, mas já tinham comido e que ele estava no carro as aguardando para ir embora.
Ótimo, até meu segurança está se divertindo.
Encerrei a ligação e ouvi batidas na porta. Era Gina, avisando que os caras estavam me esperando na sala. Assenti, mandei uma mensagem para Athena exigindo que viesse embora, depois segui para a sala.
— Olha ele aí. — Chris foi o primeiro a falar. — Tá mais calmo? — Perguntou, já me servindo uma bebida.
— Como o mar em dia de tempestade. — respondi seco.
— Ah, qual é, cara? Foi só uma briga. — Declan disse.
— Não foi só uma briga. Foi a minha mulher escolhendo o babaca do irmão.
— Meio injusto você exigir que ela não o veja, Wilson. E se fosse ao contrário? — Dom me perguntou em tom de repreensão.
— Minha irmã não é uma maldita sanguessuga. — rebati.
— Não curto o cara. Nunca gostei do que ele fazia com a Sammy, e ainda mais por saber que ele trabalhava com o Snake. — Chris começou. — Mas preciso admitir que ele está mudando. Eu ando por lá e vejo.
— Mudando… — eu disse com sarcasmo. — Hoje um marginal abordou ele enquanto ele estava com a minha irmã.
— E ele resolveu o assunto. — Chris disse, dando um gole em sua bebida.
— Como assim? — perguntei.
— Snake me contou. O cara era o Vinnie, um ex-vapor dele. José ligou pedindo a localização do cara. Snake disse que daria se ele cobrasse uma dívida, e por sua irmã, ele aceitou.
— Eu devo agradecer a ele por isso? — perguntei, irritado.
— Em partes, sim… — Chris fez uma pausa, e vi que ele tinha mais coisas pra contar.
— Anda, Lawson, desembucha. — mandei. Ele olhou para o Noah, que até então se manteve calado, como se pedisse autorização.
— Fala pra ele. — Noah ordenou ao Chris.
— Snake disse que José chamou sua irmã de “minha garota”.
— Como é que é? — Senti meu sangue ferver. — Eu vou matar aquele cretino. — Apertei o copo com tanta força que o senti trincar em minha mão.
— Calma, Wilson. — Noah pediu.
— É cara, o Chris tem uma teoria. — Declan me avisou.
Mas eu não queria saber. Peguei meu telefone; Athena não tinha visualizado minha mensagem. Disquei seu número e ela não atendeu. Liguei para o Bob.
— Senhor Wilson.
— Onde elas estão?
— Chegando no prédio, senhor. Estamos a apenas algumas quadras.
— Obrigado. — encerrei a ligação. Noah estava ao meu lado.
— Escuta o que Lawson tem a dizer.
Olhei para o Chris e fiquei esperando, a mandíbula travada.
— Acho que José não está com a sua irmã nesse sentido. Talvez ele tenha dito isso porque, lá no Brooklyn, é melhor ela ser "garota dele" do que de ninguém. É proteção.
— Então minha irmã precisa estar ligada a um marginal para estar segura? — bufei.
— Bem-vindo à selva, meu irmão. — Chris disse com ironia.
— Eu entendo sua raiva, Atlas, mas vamos ter que deixar isso de lado por enquanto. — Dominic disse, chamando minha atenção. — Desde que saí do hospital tivemos uma “folga”, se é que podemos chamar assim, mas eu não durmo em serviço. Nas últimas três semanas tenho pedido relatórios de horas para não perder nada.
— E o que tem visto? — Noah perguntou.
— Seu tio anda estranho. Mudou completamente a rotina. E foram mudanças bruscas: sem horário fixo para ir à empresa, não anda mais com a Marcela a tiracolo, nem mesmo com o assistente. Já trocou de carro quatro vezes nas últimas semanas, e hoje viajou para Londres.
— Nada estranho pra mim. Só tá esbanjando os bilhões que ele pegou do Noah semanas atrás. — Declan disse com deboche.
— Duvido. Pra mim esse cara tá mais envolvido nessa merda toda do que imaginávamos. — Chris disse com convicção.
— E o David? — fiz a pergunta que está me corroendo desde cedo. O paradeiro do cara que pensei um dia ser meu aliado.
— Rastreamos ele. Está enfurnado no apartamento dele, achei que ele tinha sumido mas me enganei. — Dom me avisou. — Mas Coletti me garantiu que ele anda vendo o cara da homicídios com frequência.
— O que acha que isso significa? — a pergunta veio do Noah.
— Muita coisa, irmão. — Dom respondeu, soltando o ar. — E, pra ser sincero, nenhuma delas é boa pra nós.
— Será que eles reabriram o caso? — Declan questionou.
— Provavelmente. Mas para terem feito isso, ou surgiram novas provas… ou alguém de dentro solicitou, exigindo a elucidação do caso. — Dom respondeu.
— E você não consegue descobrir? — Perguntei, sentindo algo dentro de mim apertar.
— Estou tentando, mas não posso simplesmente aparecer por lá. Não queremos olhos errados em cima de nós.

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