Capítulo 205 — Definições de Risco
Athena Wilson
Depois do meu encontro com José, retornei para casa contra minha vontade, mas o respeitei. Ele queria espaço e eu daria. Só que, assim que estacionei o carro na garagem, não resisti e enviei uma mensagem a ele: “Não esquece… tô por aqui.”
José pode não acreditar, mas a amizade dele, a companhia… é o que tem me mantido sã. Eu ainda amo o Oliver, faz somente um mês que colocamos um fim na nossa relação, mas José… ele tem preenchido um espaço no meu coração que eu nem sabia que estava vazio.
Subi para o meu apartamento e as vozes alteradas de Atlas e Samantha ecoavam pelo corredor. Deixei as sacolas de lado e fiquei com as chaves nas mãos, paralisada. Sammy apareceu, olhou para minha mão, e eu reagi por instinto. Jamais deixaria minha cunhada grávida sair nervosa e sozinha.
— Eu dirijo. — falei.
E dirigi até o apartamento do José.
Quando chegamos, a cena dele ferido nos atingiu em cheio. Samantha se irritou, gritou, depois se acalmou e foi para o quarto atender o telefone. Ficamos só nós dois. Cuidei de seus ferimentos até que notei ele se aproximar. Meu coração queria sair pela boca. Ele ia me beijar, eu sabia que sim. E o pior é que… eu queria que ele o fizesse.
Fomos interrompidos por batidas na porta, mas não foi a interrupção que me irritou, nem mesmo a presença do cara do Snake, e sim o que ele disse.
“Sua garota?”
Oi? José tem uma garota e nem mesmo me contou? E o pior de ser confundida com ela é saber que ele acabou de tentar me beijar!
O ar no apartamento parecia ter ficado rarefeito. O som da porta batendo atrás daquele marginal ainda vibrava nas paredes, mas o silêncio entre nós gritava mais alto.
Ele me olhava como se eu fosse uma bomba prestes a explodir. Ele estava machucado, suado, e eu estava irritada, não, eu estava furiosa sem nem saber direito o porquê, e ainda assim... Deus, ele era a coisa mais magnética que eu já tinha visto.
— Posso saber, José, quem é a "sua garota"? — repeti a pergunta, dando mais um passo na direção dele, estreitando os olhos.
Ele engoliu em seco, o pomo de adão subindo e descendo. Ele podia enfrentar bandidos em becos, mas parecia apavorado diante de mim.
— Ninguém, Athena. — ele tentou desconversar, desviando o olhar. — O cara é um idiota. Ele fala demais.
— Fala demais, né? Você nunca me disse que tinha alguém. Pelo contrário, há duas semanas, quando te dei carona, você disse que nunca tinha namorado, que nunca nem sequer se apaixonou. — falei, bufando.
Ele sorriu de lado, um sorriso malicioso como se percebesse meu ciúmes.
— Princesa, eu não tenho ninguém. Pode acreditar.
— Seu amigo parecia ter certeza. — insisti.
José suspirou, derrotado.
— Tudo bem, é você! Eu disse ao Snake que queria saber onde Vinnie estava porque ele mexeu com a minha garota. Se eles pensassem que você era minha, não mexeriam com você. — ele bufou, irritado. — Está satisfeita agora?
Segurei o sorriso. Saber que eu era a “garota” dele e não outra me trouxe um certo alívio, por mais absurdo que fosse.
— Então você disse isso por proteção? Porque não quer que ninguém chegue perto de mim?
— Exato. — ele passou a mão no cabelo, frustrado. — Porque você é cunhada da minha irmã, e minha amiga. E porque você é… — ele parou de falar, como se percebesse que estava falando demais.
— Porque eu sou o quê? — continuei insistindo, dando mais um passo.
Ele bufou, uma risada sem humor escapando dos lábios.
— Porque você é a única coisa limpa e bonita que cruzou o meu caminho em anos, Athena. E eu sou egoísta o suficiente para querer manter você inteira. Pra não querer que ninguém chegue perto de você.
A confissão me atingiu no peito. Não foi um poema romântico. Foi cru. Foi José.
— Você acha que eu sou "limpa"? — dei um sorriso triste. — José, eu sou cheia de falhas. Eu sou mimada, eu sou dependente emocionalmente, eu acabei de sair de um relacionamento onde fui deixada para trás...
— Você é perfeita. — ele me cortou, a voz rouca e firme. — E o Oliver é um burro por não ter te levado com ele. Sei que ele teve os motivos dele, mas se fosse eu… nunca deixaria você para trás.
Ficamos nos encarando. A distância entre nós era de apenas dois passos. Dois passos para cruzar a linha da amizade para algo que o Atlas mataria para impedir.
— Você disse que queria me beijar. — lembrei, baixinho.
— Eu disse que queria. Não disse que ia. — ele recuou meio passo, as costas batendo na porta fechada. — Athena, olha em volta. Olha pra mim. Eu moro num apartamento no Brooklyn, que nem é meu, minha irmã quem me emprestou. Eu chego em casa sangrando. Eu não tenho nada para te oferecer além de problema.
— E se eu gostar de problema? — desafiei.
— Não brinca com isso.
— Eu não estou brincando. — Me aproximei, invadindo o espaço pessoal dele. Coloquei a mão no peito dele, sentindo o coração bater acelerado contra a minha palma. — Eu passei a vida inteira fazendo o "certo". Meu primeiro namorado de verdade foi o Oliver, que eu achei que era o certo pra mim…
— E ele é. — José me interrompeu, segurando meu pulso. — Oliver cresceu no Brooklyn, mas teve uma vida diferente. O Chris lutou pro irmão ser melhor que toda essa merda. — José colocou a mão no meu rosto. — Princesa, você merece o melhor. Você precisa optar pelo certo, e o Oliver é o certo pra você.
— Eu optei por ele, no instante que ele disse que iria embora. E para onde isso me levou, José? À solidão e à tristeza. Então acho que não é o “certo” que eu preciso mais. — Levantei o olhar para ele. — Talvez o "errado" seja exatamente o que eu preciso agora.
José soltou um gemido baixo, como se estivesse perdendo uma batalha interna.
— O Atlas vai me matar. — ele sussurrou.
— O Atlas não está aqui. — respondi, ficando na ponta dos pés. — Só eu. E você.
A resistência dele quebrou.
José envolveu minha cintura com um braço, me puxando para ele com uma força possessiva que me fez arfar. A outra mão foi para a minha nuca, segurando meu cabelo.
Ele não foi gentil. O beijo foi urgente, faminto, com gosto de perigo e desejo reprimido. A boca dele tomou a minha, a língua pedindo passagem, e eu cedi, me entregando àquela tempestade.

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