Capítulo 187 — O lado que eu escolhi
Noah Blake
Ainda estávamos em silêncio; a energia do confronto ainda vibrava nas paredes. Puxei a Ju ainda mais para perto e ela se aconchegou em mim.
— Taylor. — Chamei sua atenção. — Quero pedir desculpas pelo circo. Você foi convidada para um jantar e acabou no meio de uma guerra familiar. O que meu tio disse...
Ela levantou a mão, me interrompendo com aquele sorriso de canto que é a marca registrada dela.
— Relaxa, Noah. — ela me disse, colocando sua jaqueta de couro. — Eu cresci em South, lembra? Lidei com cretinos muito piores do que o senhor Blake a minha vida inteira. A diferença é que os de lá usavam armas e os daqui usam ternos caros e palavras bonitas. Mas o cheiro de lixo é o mesmo.
Soltei uma risada breve.
— Obrigada por ter vindo, Tay. E muito obrigada por colocar aquela vaca da Marcela no lugar dela. Eu evitei confronto para não dar motivos ao tio do Noah, mas você foi incrível. — Minha mulher disse, segurando suas mãos.
— Disponha, Juju. — ela piscou. — Agora vou nessa. Tenho um grandão rabugento para visitar amanhã cedo e uma idosa fugitiva para cuidar.
— Você me manda uma mensagem mais tarde? — Ju pediu a ela.
— Mando sim, fica tranquila.
Olhei entre elas sem entender muita coisa. Provavelmente são assuntos femininos, ou talvez seja sobre o “cretino” que, depois do “acidente” do vinho, estou começando a pensar que era o meu tio.
Taylor seguiu até o elevador e, assim que a porta se fechou, senti um puxão na barra da minha calça. Olhei para baixo e vi os olhos grandes e azuis da Laurinha.
— Papai… você tá bravo?
Me agachei na hora, ficando da altura dela. O brilho nos olhos da minha filha foi como uma facada no meu peito. Não era o brilho de sempre; ela estava confusa, talvez com medo. Meu tio tinha trazido essa sombra para dentro da minha casa, e eu faria de tudo para dissipá-la.
— Não, princesa. O papai não está bravo. — passei a mão no rosto dela, tirando uma mecha de cabelo. — Por que está perguntando isso?
Laurinha colocou a mão ao lado da boca como se fosse me contar um segredo.
— A Laurinha fez um desenho e veio trazer para o titio, mas ele não parecia feliz… ele estava brigando com o papai. — ela sussurrou.
Peguei minha pequena no colo.
— Nós não estávamos brigando. O papai só estava... protegendo o nosso castelo.
— Protegendo do titio mau?
Sorri para ela.
— Às vezes ele é mau, não consegue controlar as palavras e machuca as pessoas.
— Então o titio mau não volta mais, né? Eu não gosto de gente “mau”.
— Não, princesa, ele nunca mais vai voltar. — prometi, beijando a testa dela. — Nem ele, e nem ninguém que seja “mau” vai chegar perto de você, do Heitor ou da mamãe.
Ela sorriu, aquele sorriso banguela que iluminava meu mundo, e jogou os braços no meu pescoço.
— A Laurinha é a princesa do papai, e o papai é meu príncipe. — ela disse, ainda abraçada a mim.
Fechei os olhos, aspirando o cheiro de xampu de morango. Príncipe. Se ela soubesse que o pai dela estava mais para o vilão da história na maioria das vezes... Mas por ela, eu seria o herói. Sempre.
Levei as crianças para o quarto. Laurinha capotou assim que encostou na cama, exausta. Fui para o quarto do Heitor. Ele já estava deitado, abraçado a um boneco do Homem de Ferro que o Chris deu.
Ajeitei o cobertor sobre ele, observando o peito subir e descer calmamente.
Uma memória antiga me atingiu. Eu e meu irmão, dividindo a cama em uma noite fria. Meu pai entrando bêbado, gritando, me culpando pela sua vida ruim. Eu escondendo Norton embaixo da coberta, e dizendo a ele que eram "monstros lá fora" e que a gente só tinha que ficar quieto até ele ir embora.
Norton e eu nunca tivemos isso. Nunca tivemos um pai que nos cobrisse com carinho, que verificasse se estávamos seguros. E mesmo eu tentando ser um bom irmão, eu ainda era só uma criança. O que me conforta é saber que Norton teve o amor da Marisa… até o fim.
Sentei ao lado do Heitor, passei a mão por seu rosto. Meu campeão nem mesmo se mexeu.
— Eu queria que você visse isso, irmão... — sussurrei para o quarto escuro, sentindo o nó na garganta. — Eu quebrei o ciclo, Norton. Meus filhos estão seguros. E eu prometo que eles nunca vão sentir o medo que a gente sentiu.
Beijei a testa do meu filho. Sim… meu filho. Mesmo que meu tio, que o mundo diga ao contrário, Heitor e Laura são meus.
— Durma bem, campeão. Papai vai estar sempre aqui. — sussurrei para ele, que ainda dormia. Levantei e saí do quarto, deixando os fantasmas do passado no corredor.
Entrei na nossa suíte. Juliet estava parada em frente à janela, olhando para a cidade, usando uma camisola de seda que desenhava a barriga já evidente. E um sorriso, junto com um pensamento, veio:
“Meus filhos… os três.”
Tranquei a porta. O clique da fechadura fez ela se virar.
Os olhos dela encontraram os meus, e a conexão foi instantânea. Não precisávamos de palavras. Ela viu a dor, a raiva residual e a necessidade.
Caminhei até ela, não como o pai doce de minutos atrás, mas como o homem que precisava reclamar o que era seu.
— Você foi incrível hoje. — ela sussurrou quando parei na sua frente, a voz ainda trêmula do jantar infernal que tínhamos deixado para trás.
— Eu fui o que precisava ser. — respondi, rouco, baixo. — Mas agora… eu preciso de você, Juliet.
Levei a mão ao pescoço dela, sem apertar, apenas envolvendo, dominando com presença. Meu polegar traçou a pulsação acelerada logo abaixo da orelha, sentindo o calor subir pela pele dela.
— Eu sou toda sua, Senhor… — ela murmurou, os olhos escurecendo, o corpo já se inclinando na minha direção como se eu fosse o único ponto de gravidade do quarto.
— De joelhos. — ordenei, voz firme, mas sem a dureza que usaria com qualquer outra pessoa.
Juliet desceu devagar, graciosa mesmo com a barriga arredondada, ajoelhando-se no tapete macio aos meus pés. Ergueu o rosto para mim, aqueles olhos grandes cheios de confiança e desejo, uma confiança que eu havia conquistado centímetro por centímetro, depois de todo o inferno que George deixou nela.

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