Capítulo 165 — Longo caminho
Samantha Jones
Atlas estava parado na porta, me encarando, sem dizer uma única palavra.
— Posso entrar? — A voz do Elijah chamou nossa atenção.
— Claro, doutor, por favor. — falei, e ele entrou.
— Bem, senhorita Jones, como está se sentindo? — Elijah me perguntou e logo iniciou a consulta.
Me avaliou, fez perguntas e mais perguntas, comentou sobre o resultado dos exames que colhi ontem de manhã. Ficou feliz com como meu corpo já estava respondendo ao tratamento. Disse que os enjoos, desmaios e a fadiga são normais da gravidez; nem todos os sintomas vêm da anemia.
Falou que eu não preciso ficar só deitada, que a anemia se cura com medicamentos e a alimentação certa, e não na cama o dia todo. Eu brinquei sobre isso, tentando aliviar o clima entre Atlas e eu, mas ele permaneceu calado.
— Então, Samantha, as medicações continuam, o ferro principalmente.
— Tudo bem.
— Os exames de sangue podemos manter por enquanto toda semana, e vou avaliando, mas as consultas podemos deixar a cada quinze dias.
— O que achar melhor, doutor, eu topo. E prometo fazer tudo que recomendar.
— Já que está tão disposta a fazer tudo que o doutor recomenda… — Atlas começou e se virou para Elijah. — Me diz, doutor, o estresse é recomendado?
Elijah ficou sem graça. Atlas tinha ficado calado o tempo todo, e no único momento em que fala é para fazer uma pergunta que ficou óbvia que era para me provocar.
— Falamos sobre isso na alta, Samantha. — o médico começou. — Você não precisa viver como uma boneca de porcelana, dentro de uma redoma. A vida continua, e a gestação vai se desenvolver tanto com você tranquila, quanto não. — ele fez uma pausa. — Porém, o recomendado é evitar qualquer tipo de estresse. Tudo que você sente, passa para o bebê. Não estou dizendo que você ficar estressada com Atlas e o bebê já vai sair daí de dentro com raiva dele por ter estressado a mãe.
Elijah sorriu da própria explicação e sorri junto.
— Mas o que digo é que essas emoções extremas ativam hormônios como o cortisol e a adrenalina, e eles atravessam a placenta, impactando no desenvolvimento do bebê e até em comportamentos futuros dele. O seu pequeno… — ele apontou para minha barriga. — Sente todas as reações do seu corpo, os batimentos cardíacos que aceleram quando se exalta, ou sente medo, ou qualquer sentimento desses. Resumindo: o estresse constante é, sim, prejudicial e pode alterar o desenvolvimento do bebê.
— Ok, doutor, obrigada. — falei em um tom baixo.
— Mas preciso ressaltar que, assim como o estresse libera os hormônios ruins, as emoções positivas liberam hormônios que beneficiam o bebê.
— Pode deixar, Elijah, que vou me esforçar em só sentir boas emoções. Pelo bem do bebê. — garanti.
— E pelo seu. — o médico acrescentou. — Pelo bem dos dois, Samantha. Algumas coisas podem prejudicar o bebê, sim, mas a longo prazo prejudicam você também. Eu não sou o médico do bebê, sou dos dois, e quero manter ambos saudáveis.
— Obrigada. — agradeci.
Elijah deu as últimas recomendações, se despediu e Atlas o acompanhou. Sentei bem no canto da cama, puxei as pernas contra o peito, enterrei a cabeça entre os joelhos e fiquei ali.
Eu ouvi ele voltar, fechar a porta, sentar ao meu lado, bufar umas três vezes, ou talvez foram seis. Ele levantou, sentou de novo, enquanto eu… permaneci do mesmo jeito.
Não queria parecer infantil. Conversar é o certo, é sermos maduros. Mas eu sabia que no momento em que um de nós abrisse a boca ia tudo desandar. Repassei todos os acontecimentos dos últimos dias na minha cabeça: Dom baleado, Cyrus morto, Jenny grávida lutando pela vida, David suspeito de estar traindo Atlas (essa parte ele não sabe que eu sei; ouvi sem querer enquanto estava indo na cozinha mais cedo, mas decidi voltar para trás antes que ele percebesse).
Atlas já tem problemas demais, e José e eu só estamos sendo mais um. Só que ele não pode me obrigar a me afastar do meu irmão dessa maneira.
Respirei fundo, deitei a cabeça no joelho, olhei para ele e disse:
— Eu te amo.
Ele travou. Acho que não era isso que ele queria ouvir, não agora, não depois de eu ter ameaçado ir embora. Atlas caminhou de volta até a cama, sentou ao meu lado. Dessa vez levantei a cabeça e o encarei.
Fiquei presa nos olhos dele por alguns segundos até que ele levantou a mão, levou até a minha nuca e me puxou para ele, tomando minha boca em um beijo intenso, selvagem, carregado de raiva, de posse. Atlas me puxou para o colo dele sem separar a boca da minha. Eu senti o membro dele; era sempre assim, nossas brigas sempre o deixavam excitado.
Atlas interrompeu o beijo, segurou meu rosto entre as mãos.
— Nunca mais diz uma coisa dessas. Nunca mais diz “acabou”.
Colei minha testa na dele.
— Me desculpa. — sussurrei, levantei o rosto para encará-lo novamente. — Sei que você só estava preocupado comigo. Eu sei quem é meu irmão, eu vejo tudo que ele faz.
— Então por que insiste nisso, Sammy? Até quando você vai usar essa desculpa “ele é meu irmão”, ou “ele é a única família que tenho”?
— Atlas…
— Me escuta, Samantha. Eu sei que ele é seu irmão, sua família. Mas agora eu também sou. — ele colocou a mão na minha barriga. — Nós somos.
— Eu sei, meu amor. — Coloquei a mão no rosto dele. — Quando digo que José é minha família, não estou anulando você e o bebê. Só estou lembrando que ele é o último pedaço da minha mãe que sobrou.
— Mas esse pedaço te faz mal.
— Não posso culpar o José por isso. Ele não me faz mal.
— Samantha, você está se ouvindo?
— Eu sei o que você vê, e é o que todo mundo vê, é o que a Juliet tenta me fazer enxergar do dia que nos conhecemos. Mas não posso só culpar o José, eu também tenho culpa nisso.
Atlas me tirou do colo dele e se levantou irritado.
— Agora você vai fazer dele a vítima e você a culpada? Pelo amor de Deus. — Ele disse passando a mão no rosto, tentando se acalmar.
— Eu disse que eu também tenho culpa, e não que sou culpada sozinha. — levantei para ficar perto dele. — Fui eu quem o acostumei a isso, fui eu quem aceitei tudo isso achando que era o certo. Mas depois de hoje… não quero me afastar do meu irmão e não vou.
Atlas me lançou um olhar duro.
— Só que também não vou ser a mesma Samantha. José precisa crescer, amadurecer e aprender a se virar. Também precisa aprender a me amar do jeito certo.
Os olhos dele suavizaram um pouco.
— O que isso significa?

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