Capítulo 162 — Consequências
Atlas Wilson
Caminhei do corredor até a sala com a cabeça latejando. Eu não queria magoar a Samantha não permitindo a visita do José, mas também não posso colocar a gravidez dela em risco.
Teoricamente é só uma “anemia”, mas uma anemia que a está deixando fraca, cansada, sensível e necessitando de repouso e paz.
E eu vou garantir isso.
Cheguei na sala e José estava olhando ao redor. Seus olhos passavam pelas grandes janelas, onde tínhamos uma visão privilegiada da cidade. Depois iam para as cristaleiras, minha mobília, até que os olhos pararam na minha irmã, e com o olhar veio um sorriso malicioso.
— Prazer, “gatinha”, eu sou o José. — ele disse, se aproximando dela, mas antes que Athena respondesse:
— O nome dela é Athena, não "gatinha", e ela sabe muito bem quem você é! — falei, entrando na sala e parando ao lado da minha irmã, bem de frente com ele.
— Atlas. — ele disse, se endireitando.
— Pode ir lá para dentro, garota, eu assumo daqui. — falei para minha irmã, dando um beijo em sua testa.
— Eu vou no apartamento do Oliver, ele vai me ajudar com umas coisinhas… — ela disse, e a olhei sério.
— Athena, já falamos sobre isso.
— Já. — ela me deu um beijo rápido na bochecha. — E eu disse que te amo, mas a decisão não é sua. — Athena riu, se despediu de José e saiu correndo do apartamento.
Queria chamá-la de volta e ter mais uma das nossas longas conversas. Mas, como eu disse, é uma “longa conversa” que demanda tempo e atenção, e nesse momento essas duas coisas preciso direcionar ao cara que está bem na minha frente.
O irmão da minha mulher.
— Vamos ao meu escritório. — eu disse, sem muita enrolação.
— Onde está minha irmã? Com todo respeito, cunhadinho, mas eu vim até aqui para vê-la.
— E vai ver. — rebati. — Mas só depois de nós dois termos uma conversa. — fechei a distância entre nós. — De homem para homem.
Ele não me questionou, assentiu sério e me seguiu. Fechei a porta do escritório atrás de nós sem delicadeza. O clique seco da fechadura ecoou como um aviso.
José não pareceu se intimidar. Pelo contrário. Caminhou pelo ambiente com a mesma curiosidade desrespeitosa de quem entra numa casa que não é sua, mas acha que tem direito a tudo ali dentro.
— Bonito aqui. — comentou, passando os dedos pela lombada de alguns livros. — Dá para ver que minha irmã se deu bem.
— Você não veio aqui para avaliar patrimônio. — respondi, cruzando os braços. — Veio porque eu permiti.
Ele sorriu de canto, aquele sorriso torto de quem vive à margem da própria dignidade.
— Você é mandão, hein? Minha irmã gosta disso?
Meu maxilar travou, mas não respondi. Não ia cair nas provocações dele.
— Senta. — apontei para a cadeira à frente da mesa.
— Prefiro ficar em pé.
— Não foi um pedido.
Houve um segundo de silêncio pesado. José me encarou, avaliando até onde podia ir. Por fim, puxou a cadeira e sentou, jogando o corpo para trás com descaso.
— Fala logo, Atlas. — disse. — Antes que minha irmã resolva sair do quarto e estragar esse clima de testosterona reprimida.
Inclinei o corpo para frente, apoiando as mãos na mesa.
— A Samantha está grávida.
O sorriso dele desapareceu por um instante.
— Grávida?
— Está. — continuei, sem suavizar. — E anêmica. Grave. Risco para ela. Risco para o bebê.
Observei cada microexpressão. A surpresa foi real. O incômodo também. Mas não durou.
José passou a mão pelo rosto, respirou fundo… e então deu de ombros.
— Bom… parabéns para ela.
A frieza da resposta fez algo estalar dentro de mim.
— Ela saiu ontem do hospital. — falei, a voz baixa e perigosa. — Está fraca. Precisa de repouso. Precisa de paz. E você não faz parte dessa equação se continuar sendo um problema.
Ele riu.
Riu mesmo.
— Você não entende, né? — disse, balançando a cabeça. — Eu não vou desaparecer da vida da minha irmã só porque agora ela tem um namorado…
— Noivo. — corrigi.
Ele deu de ombros como se o título não importasse.
— Que seja… Eu não vou desaparecer da vida da Sammy só porque ela tem um “noivo” controlador e um bebê a caminho.
— Você pode continuar próximo. — respondi. — Desde que pare de sugar. Desde que não traga seus vícios, suas dívidas e sua merda emocional para cima dela.

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