Capítulo 161 — Cercos e iscas
Atlas Wilson
O rosto do David na tela pareceu um soco dado de perto demais. Não havia dúvidas, era ele. Mesma barba, mesmo jeito de manter o queixo erguido.
— Que porra é isso, Dom? — minha voz saiu mais baixa do que a fúria que subiu dentro de mim.
Ele não respondeu de imediato. Esperou eu devolver o celular, como se me desse tempo para engolir o impacto.
— Galpão no Bronx — respondeu, enfim. — Um dos que pertencem ao Snake. A imagem é de ontem à noite.
Pisquei, tentando encaixar as peças.
— Ontem? Mas você está se recuperando, Dominic, e foi para campo?
— Eu não fui até lá — ele rebateu. — Tenho homens para isso, e eles estão em cima do Snake desde que essa merda toda começou. A imagem veio para mim hoje de um dos meus agentes.
Meu estômago girou.
David. Dentro de um galpão do Snake. No Bronx.
— Você tem certeza de que é ele? — perguntei, mesmo sabendo a resposta. Eu conhecia aquele homem há anos. Não tinha como ser outra pessoa.
Dom arqueou uma sobrancelha.
— Você também viu a foto, Atlas. Se achar que não é ele, eu mando rasgar o relatório inteiro.
Passei a mão no rosto, tentando afastar o zumbido na cabeça.
— Por que ele estaria ali? — questionei. — O David me pediu ajuda, você estava lá, ouviu tudo que ele disse. Ele estava com medo, apavorado, e nessa foto ele está…
Tranquilo.
Minha mente completou a frase, mas minha boca guardou a palavra para si.
— Atlas… — a voz dele veio mais grave. — Estamos falando de um homem que executou o seu pai e a mulher dele em uma varanda. Sem hesitar. Sem medo. Sem desculpa. Só decisão tomada, ação executada. Esse cara nunca foi santo.
Fechei os olhos por um segundo. A lembrança do relatório, das fotos que eu nunca devia ter visto, veio como facada velha reabrindo.
Respirei fundo.
— Tá. — admiti. — Então vamos lá. O que você tem além da foto?
Dom puxou o celular de volta, bloqueou a tela e enfiou no bolso.
— Nas últimas horas, muita coisa se mexeu — começou. — Primeiro: Adam me encontrou no hospital. Falou que o irmão e o Snake não querem mais fazer parte desse “esquema” contra vocês, mas que o patrocinador, que eles apelidaram de “Drácula”, avisou que dali, eles só saem mortos.
— Que merda... E já tem ideia de quem é o “patrocinador”?
— No primeiro momento, pensei no senhor Blake — Dom respondeu. — O nome dele tem aparecido nas transações. Mas aí veio a foto do galpão. E, quando bati o olho no David, ele acabou conquistando a cadeira de suspeito número um.
— Dom, para ele ser o patrocinador, ele precisa de grana e, até onde eu sei, isso é uma coisa que ele não tem.
— Atlas, o cara ficou anos no exterior. Você só sabe o que ele te contou, e vendo ele no Bronx agora só me mostra que ele é um puta de um mentiroso.
— Talvez ele só esteja se ligando a eles por medo. — respondi.
Eu precisava tirar todas essas dúvidas de dentro de mim. Não que eu estivesse fechando os olhos para o óbvio, mas toda essa merda na minha vida começou por causa dele, do meu pai e da esposa do David.
— Acredita mesmo nisso, Wilson? Me responde com toda a sinceridade: acredita que David foi até lá por medo ao invés de vir até você, que o tem ajudado por todos esses anos?
— Você parece decidido em que ele seja o “Drácula”.
— Decidido ainda não. O que estou dizendo é que, hoje, ele é o elo mais forte que temos entre o Snake e os cretinos — respondeu. — Se ele não for o Drácula em pessoa, está segurando o guarda-chuva dele.
Suspirei.
— Na última vez que a gente conversou… — comecei, tentando puxar a memória. — Ele estava estranho. Mais cínico do que o normal. Disse que esse mundo sempre cobra nota fiscal de tudo. Até de quem tenta sair da conta. Eu achei que era só uma daquelas frases filosóficas de quem não tem muito o que dizer, mas agora… Agora soa muito mais como ameaça velada.
Dom assentiu devagar, como quem vê a peça encaixar no tabuleiro.
— O cerco está se fechando, Wilson — ele disse. — Mas ainda não temos o suficiente para derrubar todos de uma vez. Se a gente atira agora, corre o risco de pegar só a periferia do problema e deixar o centro vivo.
— E o centro é quem? — perguntei. — O senhor Blake, o Drácula ou o David?
— É isso que a gente precisa descobrir — respondeu. — O que eu já sei é: o Tropeço e o Snake querem cair fora. Estão cansados de serem usados como peça descartável. Eu posso usar isso ao nosso favor. Com a promessa certa, eles cantam. E, se cantarem o suficiente, a gente tem prova para enfiar todo mundo no buraco. Ou para tirar quem realmente importa do fogo cruzado.
Olhei pela janela. A cidade seguia como se nada estivesse acontecendo.
— Você tem meu apoio — falei, enfim. — O que decidir, Dom, eu estou dentro. Desde que no final da linha nenhum deles encoste na minha família.
Ele assentiu de novo, como se já esperasse isso.
— Vou precisar de você em outro assunto também — avisou.
— É só falar. — eu disse sem hesitar.
— Sebastian Vechi.
— O Dom de Los Angeles? Ele é filiado dos Larson, trombei com ele na Calabouços algumas vezes.
— Ele mesmo. Eu descobri quando tudo isso começou que ele teve uma ligação com a Penelope.
— Relação? Dom e Sub? — perguntei.
— Um pouco mais que isso. Eles tinham um contrato, mas ele a convenceu a assinar por conta do tratamento do pai. Longa história, que o Lawson explica melhor depois. A questão aqui é que o antigo contrato deles gerou uma multa bilionária.
— Bilhões por uma sub? O cara é ousado.
— Tem mais nisso, Atlas, eu sei que tem. Levantei os últimos dados dele, e ele é mais do que um Dominador babaca com mania de contrato alto. O sobrenome Vechi aparece em listas de investidores suspeitos, fundos nebulosos, clubes fechados em Los Angeles e Miami. Gente que lava dinheiro de metade dos vícios do país.
— Confesso que, me lembrando dele agora, a postura dele se encaixa com coisas desse tipo.
— O cretino quer um bilhão da Penny, ou ela de volta. — ele disse.
— Nem fodendo! — falei irritado.
— Não mesmo. — Dom me respondeu. — Já fechei tudo com o Chris, ele vai puxar o Sebastian pela isca do bilhão. Eu vou puxar pelos meios oficiais.

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