Capítulo 160 — Por isso
Atlas Wilson
Peguei a bandeja, senti o peso dela nas mãos e voltei para o quarto. Parei com a mão na maçaneta. O silêncio que eu esperava encontrar tinha sido substituído por um sussurro que fez meu sangue gelar. E dessa vez não era de medo. Antes de abrir a porta, ouvi a voz da Sammy, baixa, ao telefone...
— Tudo bem… eu também estou com saudade — ela dizia. — Tá, José… te vejo daqui a pouco, então.
Meu maxilar travou na hora. Entrei no quarto, e ela abaixou o celular, encerrando a chamada.
— Quem era? — perguntei, tentando manter a voz neutra e fingindo que não havia ouvido nada. Porque só de pensar em José, meu sangue fervia.
— José. — ela respondeu, simples. — Ele soube, não sei por quem, que eu estava no hospital, mas eu não quis preocupá-lo e nem contar sobre a gravidez por telefone. Então eu sugeri… — ela fez uma pausa. — E ele aceitou vir aqui me ver.
Coloquei a bandeja na cômoda, sentindo aquela velha pontada incômoda, um grito de alerta.
"Sammy não é minha mãe... José não é meu pai."
Falei isso para mim mesmo como um mantra, para não explodir.
— Hoje? — perguntei.
— Daqui a pouco. — ela assentiu. — Ele ficou chateado de não saber antes, Atlas. E eu não tiro a razão dele. Sei que ele se importa comigo, de um jeito meio atrapalhado, mas se importa.
Respirei fundo. José podia ter todos os bons motivos do mundo para vir, mas isso não apagava o fato de que minha mulher estava grávida, anêmica, emocionalmente no limite, e que ele... é um cretino.
— Tá. — respondi, por fim. — Mas se você cansar, a visita acaba. Eu não vou deixar ninguém te sugar nem um minuto a mais do que você aguenta.
Ela sorriu, com aquele olhar que misturava carinho e leve provocação.
— Você fica tão sexy quando fala desse jeito…
— Eu fico paranoico, é o que eu fico. — rebati. — Agora come antes que eu resolva te proibir de receber qualquer visita nesse apartamento pelos próximos nove meses.
Ela riu, e eu ajeitei os travesseiros atrás dela, trazendo a bandeja.
— Sopa, bolo e um suco. — anunciei. — Refeição de princesa anêmica.
— Você sabe vender bem as coisas. — ela comentou, pegando a colher. Deu a primeira colherada, fez uma careta pensativa e depois assentiu. — Está boa.
— Claro que está boa. É a Georgina. Ela devia ganhar um prêmio por isso.
Fiquei observando enquanto ela comia devagar, uma colher por vez. Cada gesto simples dela parecia um milagre particular: mastigar, engolir, sorrir, reclamar do tempero, brincar comigo.
Quando terminou a sopa e metade do bolo, eu tirei a bandeja e voltei para a cama, deitando ao lado dela. Ela automaticamente se virou, encaixando a cabeça no meu peito, a mão mais uma vez repousando sobre a barriga.
— Sabe, às vezes eu ainda acho que vou acordar e descobrir que nada disso é real — ela murmurou. — Que eu não tenho você, que não estou grávida, que estou sozinha no meu apartamento minúsculo no Brooklyn, trabalhando em dois, três empregos para pagar as contas.
Passei a mão pelos cabelos dela, devagar.
— Eu também tenho esse medo às vezes. — confessei. — De abrir o olho e descobrir que tudo isso é uma vida que eu inventei porque a outra era insuportável.
— E como você lida com isso? — ela perguntou.

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