Capítulo 153 — Entre correntes e fugas
Penelope Lopez
Tem dias em que o passado b**e na porta.
Hoje ele não bateu. Ele arrombou.
Eu estava sozinha quando o entregador chamou no interfone.
“Entrega pra senhorita Penelope Lopez”, ele disse.
Podia ser qualquer coisa: algum pedido atrasado, alguma besteira que eu tivesse comprado pela madrugada… mas o envelope era grosso demais, pesado demais, com aquele papel caro que só gente com dinheiro demais e escrúpulos de menos usa.
Sebastian sempre teve bom gosto para três coisas: vinhos, gravatas… e ameaças.
Subi com o envelope na mão, sentindo a garganta secar a cada passo. Fechei a porta do apartamento, encostei as costas nela e fiquei alguns segundos parada, respirando, como se isso fosse atrasar o inevitável.
Não atrasou. Nunca atrasa.
Abri o envelope. Um único papel.
Li a primeira linha.
“Mi Caliente…”
O chão sumiu dos meus pés.
Eu não lembro de ter caminhado até o quarto. Quando percebi, já estava sentada no meio da cama, joelhos colados ao peito, braços abraçados às pernas, o papel amassando entre meus dedos. E, pela primeira vez em muito tempo, chorei como a menina que eu era quando tudo começou.
Porque antes de Nova York, da agência, do Christopher me chamando de “encrenca”, de eu achar que podia ser alguém normal…
Teve Los Angeles.
Teve meu pai morrendo em uma cama de hospital.
Teve Sebastian Vechi.
Eu nunca fui o tipo de garota feita para clubes privados.
Eu era garçonete em um restaurante meia-boca em Los Angeles, morava longe demais do centro e perto demais de vizinhos que brigavam por qualquer coisa. Meu pai piorava a cada semana. O dinheiro sumia mais rápido do que entrava. E a única coisa cara que eu tinha era o medo.
— Vem comigo hoje, vai ser divertido. — Ligia tinha insistido naquela noite, revirando os olhos para a minha cara cansada. — Não é o tipo de lugar que você está pensando, Penny. É melhor.
Eu não sabia exatamente o que era “melhor” para ela, mas para mim qualquer coisa que não fosse plantão duplo e conta atrasada já parecia milagre.
Eu fui.
O clube era em um prédio discreto, fachada sem placa, só um símbolo metálico na porta. Lá dentro… luz baixa, couro, colares, risos e gemidos abafados. Tudo cheirava a perfume caro, álcool de qualidade e perigo controlado.
— Relaxa. — Ligia sussurrou, segurando minha mão. — Aqui todo mundo está porque quer.
Eu não tinha tanta certeza. Mas por algum motivo, não fui embora.
Eu estava encostada no bar, tentando fingir que era apenas uma curiosa acidental, quando senti o olhar.
Ele sempre chega antes dele.
Quando finalmente ergui os olhos, ele estava lá. Terno perfeitamente ajustado, gravata escura, rosto anguloso, cabelos impecáveis. Não era bonito de um jeito óbvio. Era daquele tipo de presença que preenche o ambiente e faz todo o resto parecer figurante.
Sebastian Vechi.
Ele não sorriu. Só me analisou, da cabeça aos pés, como se estivesse avaliando um investimento.
Eu virei o rosto, incomodada, e tentei me convencer de que ele perderia o interesse.

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