Noah Blake
A madrugada ainda não tinha ido embora. Ficava presa na janela como um fantasma, um espectro que insiste em voltar mesmo quando a gente implora para que fique longe.
Juliet estava sentada no chão do banheiro comigo. As mãos dela tremiam quase tanto quanto as minhas, mas ela não se afastou. Não se levantou. Não fugiu. Ela ficou, e às vezes isso é o que salva alguém que está afundando: alguém que fica.
Eu encostei a cabeça na parede fria. A frieza era forte, dolorosa, mas real. Diferente do meu próprio corpo, que oscilava entre febre, tremor e aquele vazio que machuca mais do que qualquer ferida física.
Ela acariciou meu cabelo com cuidado, como se qualquer toque mais firme pudesse me quebrar.
— Você quer falar? — ela sussurrou, com a voz do tipo que costura feridas.
Eu fechei os olhos.
E, dessa vez, a porta do passado se abriu inteira, e a lembrança veio com força. Me lembrei de como a segunda noite foi pior. Eu não dormi. Fiquei sentado no chão do quarto com o Norton no colo, balançando ele devagar para ninguém ouvir nossos soluços.
— Ele não volta mais… — eu mentia para ele, mesmo sabendo que mentira não segura monstros. — Eu estou aqui. Eu prometo.
Crianças acreditam em promessas. Crianças fazem promessas crendo que o mundo respeita as palavras.
Mas o mundo não respeita nada.
Na terceira noite, ele voltou. Não houve luta. Não houve chance.
Eu só lembro do cheiro do quarto. Do lençol amassado. Do ursinho azul no chão. Norton dormindo, protegido, porque eu coloquei o corpo entre eles.
E eu lembro do silêncio.
O silêncio de uma criança que descobriu que gritar não adianta, porque ninguém escuta.
De volta ao presente, o som da minha respiração voltou rápido, curto, doloroso. Juliet percebeu, claro que percebeu.
Ela pegou meu rosto com as duas mãos e pressionou a testa na minha, olhos ardendo juntos.
— Noah… amor… — a voz dela quebrou comigo. — Ninguém pode te machucar mais. Você não está lá. Você não está sofrendo isso agora. Você está aqui. Aqui comigo.
Mas a memória não obedece à lógica. No passado, eu tinha sete anos. Frágil. Sem voz. E naquela casa ninguém queria ouvir.
No dia seguinte, eu procurei meu pai.
— Pai, por favor, me escuta — pedi. — Ele entrou no quarto. Ele tentou machucar o Norton. Me machucou…
Ele me olhou com tédio. Com cansaço. Com vergonha.
Mas não com amor.
— Você mente — ele disse simplesmente. — Sempre foi sensível demais. Chega dessa imaginação. Homem não inventa histórias.
Homem.
Eu tinha sete. E ele queria que eu fosse homem. O motorista passou atrás dele e sorriu para mim, aquele sorriso que fica estampado em pesadelos. Meu pai colocou a mão no ombro dele. Eu fui embora e vomitei atrás do jardim.
Minha mãe também não me ouviu. Ou talvez tenha ouvido, mas não importava. Ela odiava o fato de Norton ser diferente. Odiava o fato de eu ser sensível. Ela queria filhos perfeitos e ganhou dois garotos estragados pelo mundo.
Eu aprendi ali:
Amor não impede nada. Amor não salva ninguém.
Foi quando meu tio apareceu na história.

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