Noah Blake
Acordei antes do sol nascer.
Ou talvez eu não tenha dormido de verdade. O travesseiro estava úmido: suor, lágrimas ou lembranças, eu não sabia. Só sei que meu corpo parecia ter voltado a vinte e seis anos atrás, pequeno demais, fraco demais… vulnerável demais.
Juliet dormia ao meu lado, enrolada em mim como se fosse meu porto seguro e, ao mesmo tempo, minha última âncora. Mas ter alguém assim também dói, porque quem tem algo precioso demais para perder vive com medo constante do fim.
E eu sei exatamente o que é perder tudo.
Levantei devagar para não acordá-la. Caminhei até o banheiro com passos arrastados, deixei a água correr e apoiei as mãos na pia. Me olhei no espelho. Os olhos vermelhos, garganta seca, o corpo tremendo.
Norton.
O nome veio à minha mente como um sussurro. Meu irmão. Meu primeiro amor na vida, o primeiro ser que eu quis proteger.
Fechei os olhos e deixei as lembranças abrirem a porta sozinhas.
Eu tinha sete anos quando entendi o que era carregar o mundo nas costas. Eu e Norton éramos gêmeos, então ele tinha a mesma idade quando aconteceu. Meu irmão tinha o corpo pequeno, mente ainda menor, mas uma alma enorme. Falava com os pássaros do jardim como se eles respondessem. E talvez respondessem, porque ele ouvia coisas que ninguém mais ouvia.
Eu andava ao lado dele no corredor da mansão, segurando sua mão. Ele sempre sorria quando eu estava lá.
— Noah, olha! — ele apontou para a janela. — O sol tá dançando…
Eu sorri. Porque naquela época, o sol ainda dançava para nós. A lembrança mudou de cor. Ficou escura.
Eu desci as escadas naquela noite para pegar água e encontrei o que destruiria meu mundo para sempre. Meu pai não estava na cama com minha mãe. Estava na sala com o motorista.
As mãos entrelaçadas nos cabelos dele, os beijos fervorosos, a respiração pesada.
E naquele instante, eu entendi duas coisas que um garoto de sete anos não deveria entender: meu pai não amava minha mãe. Ninguém era seguro.
Quando ele me viu, ficou em silêncio. Não pediu desculpas. Não negou. Apenas disse:
— Volte para o quarto, Noah. Isso não é da sua conta.
Mas era. Sempre foi.
Depois daquele dia, nunca mais tirei aquela imagem da minha mente. Comecei a dormir no quarto do Norton. Eu era criança, mas dormia com medo de tudo: do escuro, do meu pai, do motorista, da minha mãe ver o que vi, daquilo que eu não compreendia. E dormia ali porque eu sabia que, enquanto eu estivesse ao lado do meu irmão, nós dois estávamos seguros da confusão que seria quando minha mãe descobrisse o mesmo que eu.
Só que tinha algo que eu não sabia: que ver meu pai aos beijos com nosso motorista não era nada comparado ao que viria algumas noites depois.
Ouvi um barulho estranho. Abri os olhos e vi o motorista sentado na cama do Norton. Ele tocava o braço do meu irmão, que dormia com o ursinho azul no peito.
Eu gelei.
— Sai daqui — minha voz era fina, mas firme.
Ele olhou para mim como quem observa um animal prestes a ser abatido.
— Não grita, Noah. — Sorriu. — Não vai mudar nada.
Eu o empurrei. Ele riu. E foi aí que ele me agarrou. Norton acordou chorando, gritando meu nome, mas eu só conseguia lutar. Bater. Arranhar. Gritar.

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