Capítulo 138 — Obrigado por voltar para mim
Declan Reed
Os olhos da minha mulher estavam abertos.
Frágeis. Cansados. Inundados de alguma consciência distante, mas abertos, vivos, presentes.
A respiração que saiu do meu peito não foi uma inspiração. Foi um desmoronamento. Tudo dentro de mim caiu de joelhos ao mesmo tempo.
— Você voltou mesmo… — murmurei, com a voz que não me pertencia mais. — Deus… obrigada.
Jenny piscou devagar, tentando entender, tentando me focar. Eu estava tão perto e, mesmo assim, parecia longe dela. Minha mão segurava a dela com medo e reverência, como se qualquer aperto pudesse desfazer aquele milagre.
Noah foi o primeiro a reagir. Apertou o botão de chamada ao lado da cama. Mas ninguém apareceu, ele foi até o telefone que ficava no criado próximo à cama.
— Enfermeira, ela está consciente!
Em segundos, o médico e duas enfermeiras entraram. A energia do ambiente mudou como se a luz tivesse acendido. O bipe do monitor acelerou um pouco, não o suficiente para perigo, mas o suficiente para dizer:
Ela sente. Ela percebe. Ela está aqui.
O médico se aproximou, profissional, mas com uma pequena curva de alívio no canto do olhar.
— Jenny… consegue me ouvir? — a voz dele era calma, quente. — Pisque duas vezes para sim.
Ela piscou.
Uma.
Uma pausa.
A segunda piscada foi lenta, exausta, mas sim.
Eu quase caí.
— Certo. Muito bem — ele continuou, enquanto verificava o oxigênio, o acesso venoso, o monitor. — Você passou por uma cirurgia extensa. Perdeu muito sangue e teve uma parada cardíaca. Está estável agora, mas precisa de repouso absoluto.
Ela girou um pouco os olhos para mim. O brilho dela sempre foi meu porto. Meu lar. Agora era um cintilar mínimo e, ainda assim… suficiente para me manter respirando.
O médico continuou.
— Também precisa saber que está grávida. Quatro semanas. O bebê resistiu ao trauma, mas a situação é delicada. Vamos monitorar ambos diariamente. Qualquer alteração de pressão, temperatura, dor… precisamos saber imediatamente.
Jenny piscou duas vezes. Eu senti o chão do mundo se mexer. Mas notei algo.
Ela piscava. Respirava. Mas não gesticulava. Nem mesmo tentava.
E aquilo começou a crescer dentro de mim como espinho.
— Doutor — falei, sem tirar os olhos dela — Isso é normal?
Ele assentiu, anotando algo.
— O corpo dela está fraco. A respiração é superficial, a garganta está inflamada pela intubação. A atividade cerebral está estável. Depois de examiná-la, tiraremos o tubo, mas a fala ainda pode demorar algumas horas ou dias. Não é necessariamente um mau sinal. Apenas o corpo se recuperando da agressão.
Os olhos dela me avaliaram mais do que ao médico. A necessidade dela era óbvia. Ela queria ouvir minha versão. Minha verdade. Minha voz.
Ele finalizou:
— O senhor pode ficar mais alguns minutos, mas ela ainda precisa permanecer na UTI pelos próximos dias. Por ela e pelo bebê. Não a excite, não a agite. Toque pouco. Fale baixo.
Eu assenti, mesmo que meu corpo gritasse para envolver ela inteira, arrancar aquela cama do chão e levar para casa comigo.
Noah se aproximou, pegou a mão dela com cuidado.
— Ei, baixinha… — ele sorriu, a voz embargando. — Você deu um susto na gente.
A lágrima dela escorreu devagar. Ele inclinou-se e beijou sua testa.
— Vou avisar os outros. Eles estão esperando por notícias. Fica com ele… tenho certeza que ele não sai daqui nem com bomba — ele disse, encarando a Jenny com carinho e depois a mim. — Grita se precisar.
— Obrigado, irmão. — falei e ele deu dois t***s no meu ombro.
As enfermeiras voltaram, conversaram com a Jenny, explicaram que tirariam o tubo dela e que ia ser desconfortável. Confesso que a cena me incomodou. Ela gemeu, fez um gesto como se estivesse engasgando e logo tiraram aquilo dela.

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