Capítulo 136 — Você prometeu
Declan Reed
A frase continuava presa na minha garganta, repetindo-se como um mantra torturante, como algo grande demais para caber na minha cabeça destruída:
— Ela está grávida...
Eu dizia, murmurava, sussurrava como se repetir tornasse aquilo real. Ou suportável. Mas nada deixava aquilo mais leve. Minha mulher estava viva, só que por um fio.
E ainda carregava dentro dela um bebê nosso, também lutando por um fio.
Taylor me entregou uma garrafinha d’água. Minha mão tremia tanto que derramei um pouco.
— Declan… — ela pousou uma mão firme no meu peito. — Respira. Agora você vai entrar, vai vê-la. Mas se não estiver bem para isso, o médico não vai permitir sua entrada.
— A Tay está certa, irmão. Respira, se recompõe, por sua mulher e seu filho.
Meu filho… a palavra começou doce na boca, depois amargou, sabendo que ele e a mãe corriam riscos.
— Blake, será que vou conseguir? Será que consigo ser o que eles precisam? — Minha voz saiu tão quebrada que, por um instante, me tornei aquele moleque de oito anos que não conseguia ver a mãe sofrendo pelo câncer que a estava matando e se apegava ao melhor amigo, Noah Blake, que sempre dizia:
— Você consegue, irmão. E se não conseguir sozinho… — Noah fez o mesmo gesto de quando éramos crianças. Pegou minha mão e a apertou. — Nós vamos juntos.
Ele me puxou para um abraço. Sim… nos abraçamos. Isso não nos torna fracos, e nem menos dominantes… nos torna irmãos.
— Agora vai lá, e vê com seus próprios olhos que ela está lutando. E que você precisa lutar também.
Assenti, mas tudo parecia longe, abafado, como se eu estivesse submerso.
A porta se abriu e uma enfermeira veio me buscar. Me levou a um vestiário para me higienizar, pois ainda estava com a roupa suja pelo sangue da Jen. Assim que terminei:
— Está pronto, senhor Reed? — ela me perguntou em um tom tranquilo e com um sorriso encorajador. Eu somente assenti. — Então vamos.
A antessala da UTI era branca demais, fria demais, silenciosa demais. O tipo de silêncio que fazia o coração latejar dentro do peito. Vesti o avental descartável, calcei as luvas, ajustei a máscara. Lavei as mãos três vezes, mesmo sem perceber.
E quando a porta abriu…
Meu mundo caiu de joelhos dentro de mim.
Jenny estava ali. Pálida, frágil, intubada, fios saindo de todos os lados, monitores apitando em sequência. Um pequeno curativo improvisado sobre o ferimento. Ela parecia tão pequena dentro da UTI que meu corpo inteiro doeu.
Aproximar-me dela foi como atravessar quilômetros.
Toquei sua mão, onde estava o acesso, com a ponta dos dedos, como se fosse vidro.
— Oi, pequena… — minha voz saiu destruída, baixa. — Você me assustou. Você quase… — minha garganta fechou. — Eu achei que tinha te perdido.
Encostei minha testa na dela, inspirando o cheiro dela misturado ao cheiro de hospital. Um cheiro que eu nunca imaginei sentir nela. Nunca.
— Amor… acredita nisso? — falei num sussurro. — Você está aqui… e o nosso bebê também. Nosso bebê, Jenny.
Uma lágrima caiu no lençol branco, e eu a vi se espalhar devagar, como se tivesse sido absorvida pela dor.
— Lembra quando nos conhecemos? Insisti para que me acompanhasse naquele bistrô e você disse: “Não sei nem que roupa se usa nesses lugares, senhor Reed”... — ri sem humor. — Quando passei no seu apartamento para te buscar, você estava linda, me apaixonei por você naquele dia. — passei a mão em seu rosto. — Mesmo desconfortável, você falou sem parar a noite inteira, disse que queria ter muitos filhos porque detestava ser filha única, porque nunca teve com quem dividir a dor quando o mundo apertou e se pai se foi. Eu quase te pedi em casamento naquele instante, sabia? Eu nunca te contei isso.
Minhas mãos tremiam enquanto eu acariciava o rosto dela.
— Naquele dia… eu queria tanto dizer “deixa eu ser o pai dos seus filhos”, mas eu não achava que merecia. Eu não achava que você algum dia olharia para mim do jeito que eu olhei para você. Eu ainda acho que não sou digno… mas sou teimoso demais para desistir de você, Jenny Cullen.
Beijei devagar a ponta dos dedos dela.
— Quando o nosso bebê nascer… eu quero mais um. E depois outro. E depois outro. Quero uma casa cheia de bagunça, de crianças correndo, você gritando do corredor, com essa voz doce e esse jeito mandão. Quero tropeçar nos brinquedos de manhã, leite caindo da mesa, e descobrir um desenho no meio dos meus documentos… — Sorri ao lembrar que minha mãe me pedia desenhos para colocar na pasta do meu pai. — Quero tudo com você, pequena. Quero alegria, noites em claro, quero o caos que os bebês trazem quando chegam. Mas quero isso com você… Só com você.
O choro machucou minha garganta.
— Eu vou te pedir em casamento, sabia? Mas não desse jeito, não agora. Vai ser grande, vai ser bonito, vai ser do jeito que você merece. Velas, música, flores… uma princesa precisa de um pedido digno. E você é a minha princesa, pequena. Minha vida inteira…
Foi aí que o monitor emitiu um som estranho.

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