Capítulo 115 — O depois do depois
Atlas Wilson
Acordei com o sol da manhã infiltrando-se pelas frestas das persianas, lançando faixas douradas sobre o chão de madeira escura do quarto. Meu corpo parecia pesado, mas não de cansaço, era o peso de um sono profundo, daqueles que curam feridas que nem sabíamos que carregávamos. Fazia anos que não dormia assim, sem sonhos interrompidos por fantasmas do passado. Virei a cabeça devagar e lá estava ela, aninhada no meu peito, o cabelo espalhado como uma cascata sobre o travesseiro. Seus lábios entreabertos, a respiração suave e ritmada, como uma melodia que só eu podia ouvir.
Meus olhos percorreram o corpo dela com uma ternura que eu reservava só para esses momentos. As marquinhas vermelhas nos pulsos, leves mas visíveis, eram provas da noite anterior. Marcas minhas. Não de dor, mas de entrega total, de confiança absoluta. Meu coração se apertou de um jeito bom, quase doloroso. Como eu merecia isso? Depois de tudo que contei, depois da caixa preta que abri, ela ainda estava aqui. Inteira. Minha.
Levantei com cuidado, apoiando-me no cotovelo para não acordá-la. Mas ela se mexeu, um murmúrio baixo escapando dos lábios, e abriu os olhos devagar, piscando contra a luz que invadia o quarto. Seus olhos castanhos, ainda sonolentos, encontraram os meus e um sorriso preguiçoso se formou.
— Bom dia, amor — sussurrei, inclinando-me para beijar sua testa.
— Bom dia… — ela respondeu, a voz rouca de sono. Esticou o braço e traçou o contorno do meu rosto com os dedos. — Que horas são?
— Cedo ainda. Seis e pouco, eu acho. — Olhei para o relógio na mesa de cabeceira. — Mas eu prometi um banho relaxante ontem, lembra? E aftercare não é só na hora. Vem.
Estendi a mão, e ela a pegou sem hesitar. Levantei da cama, nu como vim ao mundo, e a puxei para o meu colo com facilidade. Ela riu baixinho, envolvendo os braços no meu pescoço enquanto eu a carregava até o banheiro. Seus pés balançando no ar, o corpo quente contra o meu. No caminho, beijei o topo da sua cabeça, inalando seu perfume único.
O banheiro amplo, com azulejos brancos que refletiam a luz do sol entrando pela janela alta. Eu tinha programado o aquecedor da banheira na noite anterior, um hábito meu, sempre pensando um passo à frente quando se tratava dela.
A água já corria quente, enchendo o ar com vapor que embaçava o espelho. Joguei uma generosa quantidade de sais de lavanda que Athena me emprestou, ela dizia que eram seus favoritos para dores menstruais e o que eu mais queria era ver minha mulher bem. Adicionei um pouco de óleo essencial de camomila, para relaxar os músculos. A espuma começou a se formar, cremosa e convidativa.
Coloquei Samantha com delicadeza na borda da banheira, ajoelhando-me na frente dela para tirar minha camiseta que eu mesmo havia vestido nela na noite passada. Seus seios se revelaram, os mamilos ainda sensíveis da noite anterior, e eu não resisti: beijei cada um deles devagar, com reverência. Ela suspirou, os dedos enfiando-se no meu cabelo.
— Você é perfeito nisso — Sammy murmurou.
— Aftercare é sagrado, amor. — Entrei na banheira primeiro, a água quente envolvendo meu corpo como um bálsamo, e a puxei para o meu colo. Ela se acomodou entre minhas pernas, encostando as costas no meu peito. Minhas mãos começaram a trabalhar imediatamente: massageando os ombros dela com movimentos circulares, descendo pelas costas, evitando as áreas mais marcadas. Usei o sabonete líquido de aloe vera, criando espuma que deslizava pela pele dela como seda.
— Como você tá se sentindo? De verdade — perguntei baixo, os lábios roçando sua orelha. Meus polegares pressionavam os nós de tensão nas escápulas, soltando-os um a um.
Ela inclinou a cabeça para trás, expondo o pescoço, e eu beijei ali, suave.
— Dolorida… mas de um jeito bom. Como se meu corpo soubesse que foi amado intensamente. — Ela virou o rosto para me olhar por cima do ombro. — Você foi… intenso ontem. Mas eu amei cada segundo. Não mudaria nada.
— Eu sei que exagerei um pouco. A raiva, o medo de te perder… tudo veio à tona. Desculpa se fui longe demais. — Minhas mãos desceram para a cintura dela, massageando os quadris com cuidado.
— Não pede desculpa, Atlas. Eu quis. Quis te dar isso, te ajudar a extravasar. — Ela segurou uma das minhas mãos e a levou até o peito, sobre o coração. — Somos um time. Ou melhor, somos um só… sempre.
— Eu te amo tanto… — falei beijando seu ombro.
— Eu te amo mais… — ela me devolveu.
Ficamos em silêncio por um momento, só o som da água e do nosso respirar. Eu continuei o cuidado: lavei seu cabelo com xampu de argila, massageando o couro cabeludo até ela gemer de prazer. Enxaguei com a ducha manual, a água caindo como chuva morna.
— Me conta uma coisa… — ela começou, hesitante, virando-se um pouco no meu colo para me encarar melhor. A espuma cobria seus seios, mas eu via o brilho nos olhos. — Você falou ontem que a Athena tem a mesma doença da sua mãe. A insuficiência hepática crônica. Como isso funciona? Ela parece tão saudável, tão cheia de vida…
Respirei fundo, escolhendo as palavras com o maior cuidado possível. Não queria assustá-la, mas também não ia adoçar a verdade. Samantha merecia tudo de mim, inclusive as partes difíceis.
— É genético, sim. Herança da família da minha mãe. Mas não é uma sentença de morte como foi no caso dela. — Minhas mãos continuaram movendo-se, agora traçando círculos suaves na barriga dela. — A insuficiência hepática crônica é uma falência progressiva do fígado. No começo, é silenciosa: fadiga, icterícia leve, nada que impeça uma vida normal. Com a minha mãe, demorou para diagnosticar. Ela já estava em estágio avançado quando os remédios pararam de funcionar. O transplante era a única opção, e… bem, você sabe o resto.
Sammy assentiu, os olhos marejados, mas atentos.
— Com a Athena, pegamos no início. Ela tinha quinze anos quando os exames de rotina mostraram algumas alterações, mas foi só com vinte e um que eles deram enzimas elevadas. Fiz todos os testes genéticos, consultei os melhores hepatologistas de Nova York. Ela toma medicamentos imunossupressores e anti-inflamatórios diariamente, faz check-ups a cada três meses. O fígado dela está estável. O transplante está na lista de espera, mas só se piorar. Por enquanto, ela vive dentro do que eu julgo normal, mas com limites. Eu controlo a dieta dela, nada de álcool, gorduras saturadas em excesso, e ela odeia quando eu fico no pé, mas sabe que é por amor.
— Ela parece tão forte… — Samantha murmurou, traçando uma das minhas tatuagens no braço.
— Eu cuido dela para que seja, porque não vou perder mais ninguém. — Beijei o ombro dela, sentindo o peso da promessa. — A medicina evoluiu muito desde a época da minha mãe. Há terapias experimentais, monitoramento constante. Athena vai viver uma vida longa e plena. Eu vou garantir isso.
Ela se virou completamente no meu colo, a água chapinhando ao redor, e me abraçou forte. Seus seios pressionados contra meu peito, o coração batendo no mesmo ritmo.
— Você é um irmão incrível. Um homem incrível. — Beijou meu pescoço, depois a mandíbula, os lábios. — Obrigada por me contar.
Retribui o beijo, lento e profundo, minhas mãos subindo para emoldurar seu rosto. Quando nos separamos, ela sorriu.

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