Capítulo 113 — Abrindo a caixa preta
Atlas Wilson
Cheguei no quarto no meio da conversa da Samantha com José, e quando entendi o assunto, aquilo me irritou. Mas eu não deixaria ninguém tentar afastá-la de mim, talvez ela não goste do que vai ouvir, talvez a imagem que Sammy tem de mim hoje seja manchada, mas mesmo assim eu não vou desistir.
Samantha Jones é minha, e nada, nem meu presente e muito menos o meu passado vai tirá-la de mim.
— Atlas… — ela sussurrou.
— Parece que vamos ter que adiar o banho, e ter uma longa conversa. — eu disse a ela.
— Podemos deixar para depois, eu não… — me aproximei dela, parando bem na sua frente.
— Não costumo ser homem de “depois”, Samantha, se vamos conversar sobre o assunto, vai ser agora.
Ela assentiu dando dois passos para trás, assim que chegou na cama ela se sentou e eu me sentei ao seu lado.
— O que ele te disse? — perguntei.
— Nada, eu não deixei que falasse. — ela segurou a minha mão. — Seja o que for, quero ouvir de você.
Sorri para a maturidade dela, levei meus lábios até os dela e a beijei. Começou lento, depois ganhou ritmo, só que aquele não era momento para ir além. Encerrei o beijo, colando minha testa na dela, e passando o polegar em sua bochecha.
— Eu te amo… — sussurrei. — E obrigado por querer me ouvir.
Nos separamos e ela me encarou com seus olhos castanhos brilhando em apreensão.
— Também te amo, e tô aqui… pronta para te ouvir. — Samantha me disse, era difícil abrir essa caixa preta… mas tem coisas que não dá para fugir. Suspirei e então, comecei.
— Quando minha mãe morreu, eu tinha vinte e três anos. Tinha acabado de passar no bar exam e recebido minha licença para exercer a advocacia em Nova York. Achei que podia mudar o mundo, fazer justiça, ser o orgulho dela. Mas a vida não tem piedade de quem sonha, Sammy.
Senti o peso das minhas palavras, a lembrança do garoto que eu fui.
— Minha mãe, Amarílis, passou anos dentro de um hospital. Ela tinha uma doença chamada insuficiência hepática crônica, uma falência progressiva do fígado. A mesma doença que hoje, atormenta minha irmã. No caso da minha mãe, os remédios já não funcionavam, e o único tratamento possível era um transplante.
Samantha me ouvia atentamente, sem desviar os olhos dos meus.
— Por um breve momento, parecia que o milagre tinha chegado. Um doador compatível apareceu, e a cirurgia foi marcada. Eu me lembro de ter levado flores naquele dia. Ela sorriu fraca, mas confiante, e disse que, dessa vez, tudo daria certo. Mas o transplante nunca aconteceu.
Senti o nó na minha garganta, essa história doía em lugares que eu gostava de deixar apagados, mas a lembrança, sempre os acendia. Mesmo assim, continuei.

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