Entrar Via

Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido romance Capítulo 208

"César"

Júlia pegou um pouco de gelo, colocou em um saco e pressionou contra o meu rosto. Suas mãos tremiam enquanto limpava o sangue com gaze e soro.

— Me desculpe por isso — murmurou. — Não queria que nada disso tivesse acontecido.

Pressionei o gelo com mais força, sentindo a adrenalina correr pelo corpo.

— Qual é o valor?

Ela fingiu não ouvir.

— Júlia...Qual o valor? — Insisti, meu tom um pouco duro demais para o momento.

Silêncio.

Dobrou a gaze com cuidado excessivo. Tempo demais para algo tão simples.

— Não é pouco.

— Quanto?

Ela respirou fundo, e as lágrimas voltaram a cair.

— Quinhentos e vinte mil para um… e cento e dez mil para o outro. Fora as dívidas nos bancos e com amigos. Mas esses acho que não vão cobrar. Os amigos, no caso.

O ar pareceu ficar mais pesado. Caio tinha se metido em uma confusão e tanto.

— Seiscentos e trinta mil? Isso é muito dinheiro…

Ela assentiu. Não era apenas uma dívida. Era uma sentença, não havia como pagar aquele valor sozinha, com aquele trabalho.

— Caio pagava os juros — disse rapidamente, como se precisasse justificar o absurdo. — Sempre pagava. Não sei muito bem como, mas eles não pressionavam tanto. Depois que ele morreu… começaram a vir quase todos os dias.

Quase todos os dias.

Olhei ao redor, para o teto baixo, a janela pequena e o cheiro abafado.

— E você ficou, por quê?

Ela soltou uma risada sem humor. Senti o nariz latejar de dor, o gelo derretendo dentro do saco, pelo menos o sangramento tinha parado um pouco.

— Eu ia embora, pensei que em ir embora pelo menos.

Algo no tom me fez erguer o olhar.

— Ia?

Os olhos dela brilharam. Não de lágrimas, mas de vergonha.

— Caio deixou nossos passaportes com eles. Como garantia. Disse que era temporário. Que pegaria de volta assim que conseguisse se estabelecer. Nos últimos meses, estava envolvido com uns amigos da cidade vizinha. Achava que ninguém mexeria com uma mulher grávida. No segundo dia da morte dele percebi que não iria para lugar nenhum.

A ficha caiu devagar. Eles não estavam cobrando apenas juros, estavam mantendo controle.

— Você está presa aqui.

Ela não respondeu. Nem precisava.

— Por que não foi à polícia? — Encarei Júlia tentando entender se tinha mais coisa que ela não estava contando.

— E dizer o quê? Que meu marido pegou dinheiro com agiotas? Que entregou os passaportes? Eles sabem onde eu moro. Sabem que estou sozinha. A polícia não ajudaria muito… e eu nem conseguiria ir longe nesse estado.

Olhei para a barriga dela.

— Quantos meses?

Eu nunca precisei de uma arma na vida. Nunca precisei sujar as mãos. Sempre houve seguranças ao meu redor, advogados, o que fosse preciso, mas naquele momento pelo menos eu precisava de uma vantagem.

— Depois eu resolvo, tenho um conhecido, amanhã entro em contato com ele.

Júlia não perguntou mais nada, guardou as coisas e foi buscar mais gelo e um remédio para dor. Não entendi bem o que ela queria quando me pediu ajuda, talvez fosse um momento de desespero, Júlia não conseguia pensar com clareza, a única solução era um jeito de ir embora daquele lugar.

Mas, enquanto a dor latejava na costela, uma decisão se formava com clareza perigosa, peguei o celular que tinha comprado, fiz a ativação e liguei para John. Eu tinha dispensado os seguranças. Ninguém sabia onde eu estava, só Júlia. Se alguma coisa me acontecesse, seria ela quem avisaria minha família.

Pensei em Camila, no nosso beijo e por um instante tudo que queria era estar bem longe dali. Em que confusão eu tinha me metido?

John atendeu, e precisei explicar o que queria.

— Senhor, não quero me intrometer na sua vida, mas isso é perigoso. Posso mandar um segurança, pelo menos para garantir.

— Não precisa. Não quero chamar atenção.

— Seu irmão sabe onde o senhor está? — Era nitido a preocupação na voz.

— Não. Ninguém sabe. E quero que continue assim.

John suspirou, em desaprovação.

— Vou mandar um pacote, irrastreável e discreto, qualquer coisa pode ligar.

— Obrigado. E conto com a sua discrição.

Júlia já tinha organizado as coisas e caminhava pela casa em silêncio. Preparou um colchão inflável no chão.

Ela não perguntou, mas sabia que eu dormiria ali.

E eu não podia deixá-la sozinha.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido