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Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido romance Capítulo 207

"César"

— Você parece bem — Júlia comentou, com a voz baixa.

Não soube o que responder. Pensei que seria mais fácil depois de tantos anos, mas agora, diante dela, eu nem sabia o que dizer. Tinha sido um erro vir aqui.

Uma garçonete se aproximou e perguntou se iríamos pedir alguma coisa. Júlia respondeu que não, mas pelo olhar parecia estar com fome, pelo jeito ainda restava um resquício de orgulho.

— O prato da casa, por favor, e uma jarra de água — pedi sem consultar Júlia.

— Não precisa, realmente não estou com fome.

Claro que tudo aquilo podia ser uma encenação. Júlia era boa nisso. Em enganar, mentir olhando nos olhos.

— Nós não somos amigos. Eu vim te ajudar, então o melhor a fazer é me contar o que está acontecendo, como o Caio morreu extamente.

Ela olhou em volta, como se ponderasse até onde poderia ir.

— Não sei direito, a polícia disse que o carro saiu da estrada e caiu em um barranco. Não sei se ele perdeu o controle… ou se jogou o carro de propósito, também não sei se faz diferença saber a verdade — Podia sentir um tom de amargura na voz dela.

— Por que acha isso? O Caio que eu conheci não era uma pessoa que jogaria o carro de um barranco.

— Só quando fui arrumar as coisas dele, descobri as dívidas… Quer dizer, eu sabia que tínhamos muitas dívidas, mas a situação era pior do que eu imaginava. Então os primeiros agiotas vieram. Eu tenho um restaurante, é um pequeno negócio, o que garante pelo menos alguma comida… mas agora eles aparecem quase todos os dias para pegar o lucro do dia e as parcelas, que são altíssimas. Antes que eu consiga pagar alguma coisa, acho que nem estarei viva.

Júlia fez uma pausa. A garçonete apareceu com a comida, e ela começou a comer imediatamente. Era nítido que passava dificuldades, que estava com fome, mas ainda assim uma voz dentro de mim dizia para ir com cautela.

— Imagino que aquele dinheiro já tenha acabado faz tempo… — não consegui evitar falar do passado.

Ela me olhou, sem graça.

— O Caio ficou um pouco deslumbrado por um momento. Eu também. — Ela abaixou o olhar para o prato. — Sei lá… acho que pensamos que poderia durar para sempre, minha mãe estava certa desde o inicio, o que vem fácil vai fácil.

— De quanto você precisa para quitar as dívidas? — Perguntei indo direto ao ponto, podia dar o dinheiro e ir embora dali.

— É um valor alto demais.

— Júlia...

— Não foi exatamente para pedir dinheiro que eu pedi ajuda — Júlia enxugou uma lágrima que descia pelo rosto e não olhava na minha cara.

— É a única forma prática que vejo de te ajudar. Com dinheiro…

Júlia ficou em silêncio. Eu também. Comemos calados, cada um perdido nos próprios pensamentos. Encarei a mulher à minha frente. Houve um tempo em que achei que éramos apaixonados, fazendo planos juntos. Por um momento, naquela época, até pensei em casar.

O silêncio se estendeu até terminarmos de comer.

— Não sei o que quero, na verdade. Dinheiro seria bom, mas acho que não posso continuar aqui sozinha, sem a minha família. Preciso dar um jeito de minha mãe me perdoar. Não posso ter e criar esse filho nessas condições. Antes mesmo da morte do Caio eu já pensava nisso. Brigávamos muito. Ele não queria ir embora, achava que conseguiria dar um jeito, que voltaríamos a ter a mesma vida de antes… mas eu sabia que era impossível.

— Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Ele não acharia outro amigo idiota para bancá-lo e roubar.

Minhas palavras saíram mais duras do que eu pretendia. Júlia desviou o olhar novamente e checou as horas no celular.

— Eu preciso ir embora. Tem uma cobrança daqui a uma hora.

— Eu vou com você.

— Não precisa.

— Isso não está em discussão.

Júlia era uma mulher sozinha e grávida. Deixei nosso passado de lado. Nada daquilo importava mais. Era uma mulher que precisava da minha ajuda e eu ajudaria qualquer pessoa naquela situação.

Paguei a conta e fomos para o carro dela, já que eu não tinha um. O veículo era velho e parecia amassado em alguns pontos. Não perguntei nada. Júlia dirigiu em silêncio por um momento.

— Esse ponto da cidade é menor e meio abandonado, mas onde eu moro é mais movimentado, tem um lago bonito, é um ponto turistico do lugar. Nos fins de semana as pessoas vêm passar o dia quando está calor, e assim consigo alguns clientes.

Júlia voltou apressada, entregando algumas notas a um deles e se afastando.

— Só isso? Tá brincando, né?

— Hoje o movimento foi fraco…

Ela tentou se explicar, mas um dos homens avançou. Entrei na frente e o empurrei para longe. Algumas pessoas olharam assustadas, mas logo voltaram às próprias vidas. Pelo jeito, aquela cena era comum ali.

— Não se mete, cara. Isso não é da sua conta.

— É, sim. Deixa ela em paz. Quanto ela deve?

Abri a carteira para completar o valor. Foi um erro.

Um deles se aproximou e me acertou um chute antes que eu pudesse reagir. Caí no chão e senti o soco explodir no meu rosto. Tudo ficou confuso por alguns segundos.

Eles pegaram todo o dinheiro da minha carteira. Ainda recebi outro chute na costela, que arrancou o ar dos meus pulmões. Algo quente escorria pelo meu rosto.

Júlia gritou, mas ninguém na rua pareceu se importar. Eles entraram na caminhonete e foram embora.

Ela me ajudou a levantar da calçada.

— Me desculpa… meu Deus… vamos entrar. Eu tenho um kit de primeiros socorros.

Consegui ficar de pé. Meu nariz sangrava, mas não parecia quebrado. Subimos por uma escada estreita até uma porta no fim do corredor. Júlia abriu e me deu passagem.

Era uma kitnet escura, com um sofá-cama, uma mini cozinha e outra porta que devia ser o banheiro. O lugar era pequeno, apertado… e deplorável.

Ela correu para buscar alguma coisa na geladeira, e um caixa em um armário. Me sentei em banco, olhando em volta com calma.

O problema dela era muito maior do que dinheiro e bem pior do que eu tinha imaginado.

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