"Iris"
Caminhamos juntos de volta para casa, meus dedos firmemente entrelaçados nos dele, meu coração batendo cada vez mais rápido, ansioso. A pele áspera e o calor real da palma dele contra a minha me ancoravam naquela nova realidade. Viktor ao meu lado, dizendo que tinha me escolhido.
Quando dobramos a esquina da confeitaria, senti o peso da minha realidade. A fachada, com cheiro de bolo recém-saído do forno e pão fresco, parecia pertencer a um mundo completamente diferente daquele de onde Viktor viera. Na entrada, meu pai estava admirando a vista, e minha irmã atendia um cliente.
Eu não tinha ideia de como ela reagiria. Quando Olivia ergueu os olhos do caderno de pedidos, congelou. Seus olhos se arregalaram no mesmo segundo em que o foco de sua visão mudou de mim para o homem ao meu lado.
Olivia quase deixou cair o caderno, mas se recuperou do choque.
Por um instante, o medo travou a minha garganta. O contato entre Olivia e Viktor no passado tinha sido breve, mas ele esteve presente no centro do momento mais profundamente traumático da vida dela, ainda que tivesse sido o responsável por resgatá-la. Prendi a respiração, esperando ver o pânico tomar conta do rosto da minha irmã, esperando o choro ou a fuga.
No entanto, o que vi não foi terror. Depois do susto, ela olhou para as nossas mãos unidas. E deu um leve sorriso. Uma ponta de alívio, quase imperceptível, suavizou os olhos dela.
— Pai... — comecei, pigarreando para tentar manter a voz firme e falhando miseravelmente na tentativa. — Este é o Viktor. Ele é um... É um amigo. Ele veio conhecer... o lugar.
A palavra “amigo” soou ridícula, considerando que tínhamos acabado de nos beijar a poucos metros dali. Atrapalhei-me nas palavras e não tinha ideia do que dizer ou de como apresentá-lo ao meu pai.
Viktor sentiu a tensão no ar. Senti o músculo do seu braço enrijecer por um milésimo de segundo antes de ele dar um passo polido à frente.
— É um prazer revê-la, Olivia. E é um prazer conhecê-lo, senhor — disse Viktor, estendendo a mão para o meu pai. Sua voz estava calma, mas havia nela uma timidez que eu nunca tinha ouvido antes.
Meu pai não esboçou nenhuma reação, mantendo a expressão fechada, e correspondeu ao aperto de mão, mas o gesto foi puramente mecânico.
Seu Ademir não gostava de estrangeiros desde o que acontecera com Olivia, e eu não lhe tirava a razão. Meu pai viu nós dois de mãos dadas; com toda certeza, sentiu que havia mais do que amizade e, pela expressão no rosto dele, imaginei que temesse que a história estivesse se repetindo.
Meu pai não disse uma palavra. Apenas analisou o porte físico imponente de Viktor. Olhava-o como se tentasse decifrar um enigma perigoso, calculando o tamanho da ameaça que eu acabara de colocar dentro da nossa dinâmica familiar. O silêncio na calçada se estendeu até se tornar sufocante.
— Por que não se senta aqui, Viktor? Vou servir um café e um bolo — Olivia veio em meu socorro. Com um sorriso no rosto, apontou uma mesa para ele.
A atmosfera estava tão carregada que precisei de uma rota de fuga. Subi correndo para o apartamento acima da confeitaria com a desculpa de tirar o sal da pele. Tranquei-me no banheiro e tomei um banho demorado, deixando a água quente lavar a areia da praia, mas sabendo que nenhuma quantidade de água seria capaz de limpar a enxurrada de emoções que ameaçava me afogar.
Quando desci para a cozinha, vinte minutos depois, o cenário que encontrei me fez parar na porta, surpresa.
A tensão não havia sumido, mas tinha mudado de forma. Olivia já havia servido uma caneca de café fresco e uma fatia generosa de bolo de fubá para Viktor. Ela estava sentada na ponta oposta da mesa, conversando em tom baixo com ele. Suas mãos ainda brincavam nervosamente com a barra do avental, mostrando que o desconforto ainda morava ali, mas ela estava tentando. Viktor ouvia atentamente, mantendo as mãos visíveis sobre a mesa, os dedos estendidos em um sinal inconsciente de paz.
Meu pai, contudo, não havia cedido um milímetro. Ele agora estava de pé, de braços cruzados perto do balcão da pia, vigiando cada respiração, cada microexpressão do nosso visitante, com o cenho rigidamente franzido.
Olhei para Viktor e vi o cansaço nos olhos dele, misturado a uma determinação silenciosa de aguentar qualquer julgamento para estar ali. Eu sabia que aquele era apenas o primeiro dia, mas o peso do passado de nós dois parecia ter entrado pela porta junto conosco, cobrando um preço alto pela nossa chance de recomeço.
— Eu achei que você tinha juízo, Íris. Você não aprendeu nada? Depois do que aconteceu com a sua irmã, essas pessoas não prestam.
— Pai, eu sei que o senhor tem medo. Eu entendo de verdade, mas... não é a mesma coisa. — Eu não podia explicar ao meu pai, com todas as letras, quem era Viktor. Quando Olivia voltou para casa, essa parte da história foi ocultada; somente algumas pessoas sabiam o que realmente tinha acontecido.
— Aquele outro desgraçado também parecia de confiança.
— Eu sei... Olha, eu não vou para lugar nenhum, não vou mudar de país. Vamos conversar com calma um dia, mas confia em mim. Eu garanto que ele não vai me levar embora.
Era pedir demais. Eu podia ver, nos olhos do meu pai, o medo de ver a história se repetir.
Mas eu não podia esquecer que havia outra pessoa cuja opinião também importava. Assim, quando Viktor voltou para onde estava hospedado, pude falar com Olivia.
— Não precisa fazer essa cara, ele falou comigo — Olivia se adiantou. — Eu sei que você deve estar pensando que a presença dele é algum tipo de gatilho. Claro que foi um susto e tanto, mas ele me salvou. No fim, vai ser o rosto da pessoa que me salvou que eu vou lembrar. E, se ele está aqui disposto a deixar tudo para trás só por você, isso já é mais do que suficiente para mim. Mas é isso que você quer?
Abracei a minha irmã, tinha sido uma tarde de muitas emoções.
— Sim... é isso que eu quero. Eu não sei como vai ser, mas é isso que eu quero.
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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido
Paguei pelo capítulo 301 e ele sumiu...
Não estou entendendo.. Por que um capítulo liberado outro bloqueado?? 😩😩😩...
Gostando bora ver como será...
Alguém tem o capítulo de 27 pra frente?...
3 dias e sem um capítulo novo. Frustante....
Ta demorando muito,um capítulo so por dia é extremamente pouco, da vontade de largar....
Até o capítulo 142, pularam alguns capítulos, agora vai p o 224...
Perfeito!...