As portas do elevador se fecharam com um som suave demais para chamar atenção.
O painel acendeu. Um número subiu. Depois outro.
Valentina encostou as costas no espelho, soltando o ar devagar. O barulho distante do baile desapareceu por completo, substituído por um silêncio limpo, fechado, quase confortável.
Foi então que as luzes piscaram.
Uma vez. Duas.
O elevador deu um pequeno solavanco seco — e parou.
Valentina franziu a testa no mesmo instante.
— O que foi isso?
Rafael olhou para o painel com calma treinada, como quem avalia algo simples.
— Nada. — respondeu. — O elevador parou.
— Parou… parou? — ela perguntou, ajustando o tom, mais curiosa do que alarmada.
Ele estendeu o braço e apertou o botão de emergência.
Nada aconteceu.
Apertou outra vez.
Silêncio.
— Deve ser momentâneo. — disse, tranquilo. — Não se preocupe.
Valentina inclinou a cabeça, observando o painel imóvel.
— Interessante. — comentou. — Sempre achei que elevadores fossem mais… confiáveis.
— São. — Rafael respondeu. — Na maior parte do tempo.
Ela sorriu de canto.
— Ótimo. Sempre adorei estatísticas assim.
Ele puxou o celular do bolso.
— Vou ligar para o Moreira.
Olhou para a tela. Franziu o cenho por um segundo.
— Sem sinal aqui.
— Claro que não. — Valentina respondeu, irônica. — Quando eu sair daqui, vou escrever um livro.
Rafael ergueu o olhar.
— Um livro?
— Valentina: como sobrevivi à minha própria vida. — disse. — Série limitada. Muitos capítulos traumáticos.
O canto da boca dele subiu, discreto.
— Humor ácido.
— É o que me mantém funcional. — ela respondeu.
O elevador permanecia imóvel, mas o clima não era tenso. Era… suspenso. Como se o tempo tivesse decidido esperar com eles ali dentro.
Valentina olhou para os próprios pés e fez uma careta.
— Chega. — disse, tirando um salto. Depois o outro. — Não vou fingir elegância aqui dentro.
Ela se abaixou e sentou no chão do elevador com naturalidade, encostando as costas na parede.
Rafael a encarou, surpreso.
— O que você está fazendo?
— Sentando. — respondeu. — Estou cansada. Esses pés já cumpriram a cota social da noite.
Ele franziu o cenho.
— O chão é sujo.
Valentina riu baixo.
— Estamos no Japão. — disse. — Você já viu gente andando de meia branca na rua só pra provar que aqui é limpo?
Ele suspirou.
Tirou o paletó com um movimento contido e estendeu para ela.
— Coloque isso. — disse. — Sente em cima.
Valentina olhou para o paletó. Depois para ele.
— Rafael… — começou. — Esse terno deve ter custado milhões de dólares. Eu não posso colocar minha bunda em cima disso.
Ele riu.
Não foi contido. Não foi educado.
Riu de verdade.
Valentina arregalou os olhos.
— O quê? — perguntou.
— Nada se compara ao seu vestido. — ele respondeu. — Nem às joias.
Ela bufou, rendida.
— Absurdo. — murmurou.
Arrumou o paletó no chão com cuidado exagerado e sentou em cima dele, ajeitando o tecido como se aquilo fosse um ritual importante.
— Pronto. — disse. — Digno.
Rafael encostou-se na parede oposta, cruzando os braços, observando-a.
— Melhor?
— Muito. — respondeu. — Agora só falta o elevador colaborar.
— Vai colaborar. — ele disse.
Ela apoiou a cabeça levemente na parede, olhando para o teto espelhado.
— Engraçado… — comentou. — Depois de uma noite dessas, acabar presa num elevador parece… irônico.
— Você atrai situações improváveis. — Rafael respondeu.
— Isso é um elogio?
— Ainda estou decidindo.
Ela sorriu.
O tempo começou a se alongar de um jeito estranho.
Não havia barulho de engrenagens retomando. Nenhum aviso. Nenhuma vibração que indicasse movimento. O elevador permanecia imóvel, suspenso entre andares, como se tivesse sido esquecido no meio do caminho.
Rafael tentou o celular outra vez.
Nada.
Virou-se para o painel lateral e abriu a pequena tampa da comunicação interna. Apertou o botão do telefone de emergência.
— Eu tô bem, papai… — murmurou, a voz infantil demais para o corpo adulto. — Só mais cinco minutinhos… eu já vou…
Rafael congelou.
Não interrompeu.
Apenas se moveu.
Sentou-se no chão ao lado dela, encostando o ombro no dela, diminuindo a própria altura, tornando-se menos ameaça, mais presença.
— Valentina… — chamou, agora mais baixo. — Olha pra mim.
Ela virou o rosto devagar.
Os olhos encontraram os dele.
Por um segundo, parecia não reconhecê-lo.
— Rafa… — sussurrou. — El…
A voz falhou.
— Sou eu. — ele respondeu de imediato. — Estou aqui. O que você está sentindo agora?
Ela respirou fundo, como se voltasse aos poucos.
— Eu… — engoliu em seco. — Eu não gosto de ficar em lugares assim.
Ele a envolveu sem pedir permissão.
Um braço firme ao redor dos ombros. O outro apoiando as costas.
Não apertou demais. Não soltou.
— Você está segura. — disse, próximo ao ouvido dela. — Eu estou aqui.
Valentina desabou.
Não foi choro alto. Foi peso.
Ela se inclinou contra o peito dele, agarrando o tecido do terno como se aquilo fosse a única coisa sólida no mundo. Os braços envolveram Rafael com força inesperada, os dedos enterrando-se nas costas dele.
— Não me solta… — sussurrou. — Se eu cair no mar… eu vou morrer…
Rafael fechou os olhos por um instante.
Apertou-a um pouco mais.
— Você não vai cair. — respondeu. — Eu estou aqui. Eu não vou soltar você.
Ela respirava contra o peito dele, tentando acompanhar o ritmo dele. Aos poucos, o corpo foi cedendo. O tremor diminuindo.
Rafael apoiou a testa levemente contra a dela.
— Está tudo bem. — repetiu. — Eu estou aqui.
Valentina ergueu o rosto devagar.
Os olhos ainda marejados. A respiração irregular. Mas consciente.
Ela o olhou por um segundo longo demais.
E então, sem aviso, sem cálculo, sem coragem suficiente para pensar…
Valentina o beijou.
Rafael não se moveu no primeiro segundo.
Depois, respondeu.
Sem pressa. Sem domínio.

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