— Eu estou grávida, Rafael. Não em treinamento para cruzar a Antártida.
— As duas coisas exigem preparação.
— Não, não exigem.
— Você está comendo pouco ferro.
— Eu comi espinafre ontem.
— Isso foi um gesto. Não um plano nutricional.
Valentina revirava os olhos, beijava a boca dele para calá-lo e seguia vivendo. No fundo, porém, amava aquilo. Amava o cuidado meio exagerado, amava a maneira como ele disfarçava medo em forma de controle, amava o fato de que, mesmo seis anos depois, Rafael ainda a olhava nas duas gravidezes como se estivesse testemunhando o mundo fazer um milagre só para ele.
Lucas, por sua vez, caiu numa categoria própria.
No início, fingiu calma.
— Eu já vi uma gravidez de perto — declarou, no jantar em que Bianca anunciou que não aceitava “drama masculino desnecessário” durante os meses seguintes. — Sei exatamente o que fazer.
Três semanas depois, ligou para Rafael às onze e quarenta da noite para perguntar se era normal Harumy mexer menos em determinado horário.
— Lucas — Rafael respondeu do outro lado, a voz carregada de sono ofendido. — Você me acordou para me perguntar se bebês têm rotina de expediente?
— Isso não ajuda.
— Ligue para a médica.
— E se ela achar que eu sou idiota?
— Ela já sabe.
Bianca ouviu a ligação inteira deitada na cama e quase teve trabalho de parto de tanto rir.
Mesmo assim, Lucas estava presente em tudo. Em cada consulta. Em cada compra. Em cada noite em que ela acordava desconfortável e o encontrava já sentado, oferecendo água, almofadas, apoio para as costas e a própria alma se necessário. O homem que falava pouco amava de um jeito inteiro, e isso ficava ainda mais claro toda vez que Bianca tentava zombar do excesso de zelo dele e terminava derrotada pela ternura.
No último mês, as duas gravidezes já tinham virado um espetáculo à parte.
Valentina e Bianca se encontravam ao menos duas vezes por semana, quase sempre para trabalhar menos do que fingiam e reclamar mais do que precisavam. As barrigas enormes, os pés inchando no fim do dia, as noites mal dormidas, a sensação de carregar planetas próprios dentro do corpo e a certeza de que todos os homens ao redor tinham perdido qualquer noção razoável de proporção renderam diálogos que fariam qualquer santo rir.
— Rafael está proibindo até o Bernardo de brincar de corrida perto de mim — Valentina comentou certa tarde, afundada numa cadeira do jardim com as pernas para cima.
Bianca soltou uma gargalhada.
— Lucas reorganizou os armários da cozinha para “evitar movimento repetitivo”. Eu estou vivendo com um sequestrador gentil.
Valentina fechou os olhos.
— Moreira me ligou ontem para dizer que Lurdes mandou avisar que parto não é evento esportivo e que eu devia parar de fingir que consigo fazer tudo.
Bianca bateu na própria barriga.
— Harumy, escuta a madrinha: nunca engravide. Os homens perdem completamente o juízo.
Ao longe, Bernardo apareceu correndo com o menino de Lurdes e Moreira atrás, os dois cobertos de terra até a dignidade. Rafael e Lucas levantaram ao mesmo tempo da varanda.
As duas se entreolharam.
E começaram a rir.
A vida era isso agora.
Cheia. Confusa. Viva. Ridiculamente boa.
Foi numa madrugada morna, algumas semanas depois, que tudo desandou em dobro.
Valentina foi a primeira a acordar.
A contração veio funda, firme, conhecida o bastante para que ela abrisse os olhos antes mesmo de pensar o nome do que estava sentindo. Ficou alguns segundos parada na cama, a respiração presa, a mão espalmada sobre a barriga. Quando passou, olhou para o relógio.
Quatro e doze da manhã.
Ao lado dela, Rafael dormia de lado com o braço sobre o travesseiro vazio dela. Dormia menos tenso do que no nascimento de Bernardo, mas ainda daquele jeito de homem que parecia capaz de acordar em guerra.
Valentina sentou devagar.
— Não brinca comigo agora…
A segunda contração respondeu por Gustavo.
Ela fechou os olhos e soltou o ar.
— Claro. É hoje.
Antes mesmo de tocar o ombro do marido, o telefone dela vibrou no criado-mudo.
Valentina franziu a testa.
Pegou o aparelho.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com o Magnata Frio por Um Acordo Bilionário