Um dos seguranças rendidos tentou dizer alguma coisa, mas Rafael já estava sobre ele antes que a frase ganhasse forma completa. Parou a menos de um passo, impondo presença suficiente para fazer o outro engolir em seco.
— Onde ela está?
— Eu… eu não sei, senhor, eu juro…
Rafael inclinou ligeiramente a cabeça.
— Você tem três segundos para me dar uma resposta melhor que essa.
— Eu não sei! — o homem disparou, com a voz rachando. — A senhora entrou, subiu… depois a luz caiu. Foi só isso. Eu não recebi ordem nenhuma, eu não—
Rafael recuou antes de bater nele.
Não por misericórdia.
Por economia.
Aquele idiota não sabia de nada.
Helena não apareceu.
Enzo também não.
E essa ausência começou a pesar de um jeito ainda mais repulsivo.
Do alto da escada lateral, outro homem desceu trazendo uma mulher da equipe noturna da casa. Ela tremia tanto que mal conseguia se manter de pé.
— Senhor, os quartos dos funcionários estão vazios ou ocupados só por quem estava dormindo. Ninguém viu a senhora depois que ela saiu de manhã.
Rafael passou a mão pelo rosto, devagar, numa tentativa inútil de conter o que já fervia dentro dele. O hospital ainda estava no corpo de Valentina. O susto ainda estava nos nervos dela. O filho deles estava vivo, forte, saudável — ele tinha ouvido o coração do menino com os próprios ouvidos, tinha sentido a mão dela guiando a sua até a barriga, tinha deixado que aquela porra de esperança entrasse dentro dele por um segundo que fosse.
E agora ela tinha desaparecido.
A casa inteira parecia pequena demais para conter a fúria que começou a subir pelo sangue dele.
Foi nesse momento que Moreira apareceu no hall com um tablet nas mãos.
O rosto dele permanecia controlado, como sempre, mas havia uma urgência rara em seus olhos.
— Senhor. O Viper encontrou isso nos sistemas.
Rafael virou-se imediatamente.
Moreira estendeu o tablet. Rafael tomou o aparelho da mão dele e os olhos varreram a tela por menos de dois segundos. Foi o suficiente. O maxilar dele endureceu de um jeito quase feroz.
— Desgraçada… — a voz saiu baixa, mortal. — Eu vou matar essa mulher.
Moreira já manipulava o sistema outra vez, os dedos deslizando rápidos sobre a tela reserva em sua mão, refinando o rastreio com a ajuda do Viper. Rafael mal piscava. Os olhos ainda estavam presos ao tablet que acabara de devolver, mas agora havia outra coisa atravessando seu rosto.
Não era apenas fúria.
Era compreensão.
Uma compreensão súbita, brutal, daquilo que de fato tinha sido armado.
Valentina não tinha sumido dentro da casa.
Valentina tinha sido tirada dali.
Levava menos de um segundo para isso acender uma cadeia inteira de consequências na cabeça dele.
Tempo.
Rotas.
Saídas.
Câmeras.
Pontos cegos.
Veículos.
Possíveis destinos.
— Fala — Rafael exigiu, sem olhar para Moreira.
— O Viper pegou o trajeto da senhora, senhor. Não fica longe daqui.
Rafael estendeu a mão sem desviar os olhos.
— Mostra.
Moreira virou a tela na direção dele.
— O pier, senhor.
O mundo inteiro parou por meio segundo.
Foi só isso.
Meio segundo exato.
Mas, dentro dele, pareceu a abertura de um abismo.
Pier.
A palavra chegou com uma certeza... Valentina tinha pavor de água.
O sangue dele gelou antes de ferver.
Quando se moveu, já não havia nada contido no gesto.
Rafael saiu correndo.
Atravessou o hall como uma rajada escura, empurrando a porta principal antes que algum homem pudesse se adiantar para abrir. A noite o atingiu em cheio, fria, úmida, cortante. Atrás dele, passos explodiram em sequência. Moreira vinha logo depois, dando ordens aos outros homens pelo rádio com a mesma precisão de sempre, mas até a voz dele carregava uma tensão mais aguda agora.
— Equipe um comigo! Equipe dois fecha o perímetro! Ninguém perde contato visual do senhor!
Rafael já descia os degraus em direção ao carro quando outro pensamento atravessou sua cabeça com violência suficiente para quase partir alguma coisa dentro dele.
Água.
Escuro.

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