Rafael foi o primeiro a se afastar.
Não bruscamente.
Não com medo.
Mas com aquele controle rígido que ele usava quando algo ameaçava ultrapassar um limite que ele mesmo havia traçado anos antes.
Ele encostou a testa na dela por um segundo apenas — o suficiente para recuperar o fôlego, o juízo, o papel que acreditava precisar cumprir.
— Ei… — disse baixo. — Não podemos.
Valentina fez um pequeno som de protesto.
Um quase bico.
Infantil demais para combinar com o vestido, com a noite, com tudo o que ela era.
— Você não gosta de mim, né? — murmurou.
Rafael a olhou com atenção imediata.
Os olhos dela estavam fechados.
O corpo ainda relaxado contra o dele.
A voz… não era de uma mulher estrategista. Era de alguém cansado demais para sustentar defesas.
— Você está delirando. — disse, firme, mas sem dureza.
— Não estou… — respondeu, tranquila demais. — Estou bem com isso.
Ela respirou fundo, como se estivesse organizando pensamentos soltos.
— Você é meu marido, Rafael Montenegro. — continuou. — O homem mais frio e calculista que eu já conheci.
Ele ficou imóvel.
A frase não o atingiu como acusação.
Atingiu como verdade nua.
Valentina abriu os olhos devagar.
E quando o fez, ele estava ali, olhando diretamente para ela. Sem escudo.
— Você sabe o que está falando? — perguntou.
Ela assentiu. Uma vez. Decidida.
Valentina se ajeitou com cuidado, afastando-se um pouco apenas para conseguir se mover. Apoiada no braço dele, levantou-se devagar, como se o elevador ainda estivesse instável — ou como se o mundo estivesse.
Ficou de pé diante dele.
— Você é frio. — disse, apontando levemente para o peito dele. — Chato. Arrogante.
Rafael ergueu o olhar, acompanhando cada palavra.
— Acha que tem o mundo aos seus pés. — continuou. — Rafael Montenegro. O homem que põe medo em todo mundo só de olhar.
Ela deu um meio sorriso.
Não provocador.
Convicto.
Valentina então virou-se de lado e, sem pedir permissão, sentou-se no colo dele.
Rafael prendeu a respiração.
As mãos foram automaticamente para a cintura dela — não para puxar, não para afastar. Para segurar. Instinto puro.
Ela estava perto demais. Quente demais. Real demais.
Valentina apoiou uma mão no peito dele, sentindo o coração firme, acelerado apesar de tudo.
— Mas eu não tenho medo de você. — disse, olhando dentro dos olhos dele.
O silêncio entre eles se adensou.
Não era mais o elevador parado.
Era o tempo.
Rafael engoliu em seco.
— Valentina… — começou.
Ela não deixou.
Inclinou-se e o beijou de novo.
Não foi um beijo desesperado como o primeiro.
Foi mais lento. Mais consciente. Ainda torto, ainda carregado de tudo que não estava resolvido — mas escolhido.
Rafael fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, já era tarde demais para fingir que aquilo não o atravessava.
Ele não a empurrou.
Não a corrigiu.
Não fingiu que não sentia.
Rafael não parou.
A testa dele encostou na dela. As respirações misturadas. O mundo reduzido àquele espaço estreito, suspenso, quente demais.
— Eu não consigo. — admitiu, por fim.
Valentina sorriu como se tivesse vencido algo invisível.
Ela se moveu no colo dele, lenta, consciente do efeito. Rafael prendeu a respiração, o corpo reagindo sem pedir permissão. As mãos apertaram a cintura dela com mais força do que pretendia.
— Rafa… — ela sussurrou, tão perto que a palavra quase não existiu.
O beijo voltou.
Mais intenso.
Mais perigoso.
E então—
Um solavanco.
O elevador tremeu de leve.
As luzes piscaram.
O painel emitiu um som agudo e o número voltou a subir.
Valentina congelou.
Rafael abriu os olhos no mesmo instante, o corpo todo entrando em alerta.
O elevador estava se movendo.
— Merda… — ele murmurou, afastando o rosto dela apenas o suficiente para entender o que estava acontecendo.
O mundo voltou a existir.
Os andares começaram a passar lentamente no painel.
Valentina piscou algumas vezes, o fôlego irregular, o rosto quente demais para fingir normalidade.
Rafael fechou os olhos por um segundo longo.
Depois, respirou fundo.
O elevador desacelerou.
As portas começaram a se abrir.
A realidade estava voltando.

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