Rafael olhava para o relógio no painel como se os segundos fossem inimigos pessoais.
O motor permanecia ligado, baixo, discreto, vibrando sob a estrutura do carro de luxo estacionado diante da mansão de Enzo, enquanto a noite avançava ao redor com aquela calma cruel que só existe quando alguma coisa terrível está prestes a acontecer e o mundo, insolente, ainda se recusa a demonstrar qualquer respeito por isso.
Do lado de fora, os jardins impecáveis, os degraus de pedra e a fachada imponente da casa continuavam intocados, quase serenos, como se nada ali tivesse poder para abrigar uma ruptura. Mas Rafael sabia melhor do que isso.
Ou talvez não soubesse.
Talvez fosse justamente esse o problema.
Valentina tinha entrado fazia pouco. Pouquíssimo. Menos tempo do que a própria razão admitiria como ameaça real. Ainda assim, cada músculo no corpo dele parecia já ter entendido que havia alguma coisa errada.
No banco traseiro do carro de apoio estacionado alguns metros atrás, Moreira e outros dez homens aguardavam em silêncio absoluto, preparados desde antes de saírem do hospital.
Rafael não tinha dito em voz alta que não confiava naquela ida à casa de Enzo. Não precisava. O esquema montado por si só já dizia tudo.
No entanto, mesmo preparado, ele não conseguia ficar parado.
Os dedos apertaram o volante uma vez, com força suficiente para os nós embranquecerem. Depois soltaram. A mão foi até o telefone. Voltou. Os olhos subiram novamente para a porta principal da casa. Nada.
Nenhum movimento. Nenhuma silhueta. Nenhum sinal dela.
O relógio avançou.
Dez minutos.
Mais vinte segundos.
Mais quinze.
Rafael inspirou fundo, tentando dar ao próprio autocontrole uma última chance de continuar existindo.
Dez minutos e cinquenta segundos.Foi o limite.
Ele pegou o telefone e ligou para o carro de trás.
— Invadam — ordenou, sem elevar a voz. Foi justamente isso que tornou a palavra mais perigosa. — Tragam a senhora.
A ligação foi encerrada no mesmo instante.
As portas da van se abriram com precisão quase coreografada. Homens desceram em silêncio, rápidos, disciplinados, vestindo o tipo de eficiência que não pede espetáculo porque não precisa dele. Rafael saiu do carro ao mesmo tempo, já sentindo o próprio pulso acelerado num ritmo pesado, agressivo, incompatível com o rosto frio que mantinha.
Moreira surgiu ao lado dele com um colete preto nas mãos.
— Senhor.
Rafael tomou a peça e vestiu sem cerimônia, os movimentos secos, econômicos. O velcro fechou com um ruído áspero no ar noturno. Outro homem se aproximou para lhe entregar a arma, mas Rafael apenas encostou a mão na coronha antes de negar com um leve movimento de cabeça.
— Sem tiros — disse. — Quero essa casa inteira de pé. Se alguém reagir, imobilizem. Se alguém mentir, tragam para mim.
Os homens assentiram.
Então começou.
A porta principal foi aberta à força, não com estrondo gratuito, mas com violência controlada. Dois seguranças de Enzo mal tiveram tempo de reagir antes de serem dominados, empurrados contra a parede e desarmados com uma precisão brutal. Outro tentou levar a mão à cintura, mas foi derrubado no chão antes de tocar qualquer coisa. Não houve troca de tiros. Não houve gritos heroicos. Houve apenas velocidade, superioridade e medo crescendo tarde demais nos olhos dos homens errados.
Rafael entrou logo atrás.
A escuridão parcial da casa o recebeu com aquela elegância irritante que mansões ricas têm mesmo quando tudo está desmoronando por dentro. Algumas luzes de apoio ainda desenhavam corredores e contornos, mas boa parte do lugar permanecia mergulhada em sombra. O mármore refletia passos apressados. A madeira escura das paredes absorvia ruídos. O ar carregava perfume caro, limpeza impecável e, agora, a intrusão de algo muito mais forte que qualquer fragrância: ameaça.
— Ala superior — Rafael ordenou, sem tirar os olhos da escada. — Dois homens comigo. Os outros, dividam. Leste. Sul. Fundos. Tragam todos para baixo.
Os comandos se espalharam junto com os homens.
Ele começou a subir as escadas com o coração batendo alto demais para alguém que passara a vida inteira transformando pressão em vantagem. Dois seguranças de elite o acompanharam. No alto da escada, Rafael já não estava pensando em Enzo, na investigação ou na droga do império Montenegro que vinha apodrecendo por dentro havia anos.
Ele pensava nela.
No corpo ainda frágil.

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