No fim, decidi ligar para a polícia. Afinal, a vida é preciosa — e se tudo não passasse de um mal-entendido?
Peguei o telefone, pronta para discar, quando vi que o rosto pálido começou a se mover lentamente. Uma mão cadavérica segurava o celular e o levava até o ouvido.
Então, o celular que eu já apertava contra o botão de emergência tocou.
O toque era aquele que eu e Cecí havíamos escolhido juntas, um som acolhedor e reconfortante. Mas, naquele momento, soou aos meus ouvidos como um presságio sombrio, fazendo cada fio do meu cabelo se arrepiar.
Lutei contra o medo que me paralisava, desviando o olhar aos poucos para a tela do telefone. Na minha cabeça, um pensamento absurdo: com tantos celulares por aí, será que até os funcionários do além, como aqueles da repartição do outro lado, também tinham telefone?
Bati o olho no nome que aparecia na tela. O coração, que já parecia entalado na garganta, imediatamente voltou ao seu lugar.
Era o Grande Chefe!
As três letras dançavam diante dos meus olhos, e minha mente, até então um caos, finalmente clareou.
Mas... ele não tinha ido para casa com Marina Batista? Como poderia estar aqui?
Levantei a cabeça num impulso, procurando aquele rosto pálido.
Mas o rosto já não estava mais no para-brisa. Do lado esquerdo, ouvi novamente o som de dedos batendo no vidro.
Com a mão trêmula, peguei o celular e deslizei para atender.
— Francisca Lobato, não tenha medo. Abra a porta do carro. Ou, se preferir, pode tentar primeiro abrir um pouco a janela.
Olhei de novo para o vidro do lado esquerdo.
Ali estava o rosto de Fernando Gomes.
Para que eu pudesse vê-lo melhor, ele se agachara um pouco.
Era ele!
O medo sumiu, e as lágrimas invadiram meus olhos. Senti uma vontade imensa de chorar, de me desmanchar em prantos.

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