—Francisca, você está gritando comigo? É porque não me ama mais, né? Você está achando que eu sou um fardo, quer me jogar pros jacarés, não é? Você mudou, mudou sim! Nem você me ama mais… então quem é que vai me amar nesse mundo? Não deixo você mudar, ouviu? Se ousar mudar, eu… eu… — Ela começou a soluçar alto — eu vou morrer bem na sua frente!
Enquanto chorava e fazia esse drama todo, ela se pendurava no meu pescoço com os dois braços, apertando forte, como um abraço de ferro, a ponto de eu quase perder o ar. Naquele momento, eu só queria ser uma mestra das artes marciais, dar um golpe rápido no pescoço dela, fazê-la desmaiar — mas só desmaiar, não morrer —, só pra ela obedecer sem me deixar pingando de suor.
— Chega, meu anjo, quer fazer escândalo, faz em casa, tá bom? Não precisa dar show aqui, senão amanhã a gente vai parar na capa do jornal.
Ao ouvir “capa do jornal”, o cérebro profissional de Cecí despertou na hora. Com os olhos turvos de bêbada, olhou ao redor, arregalada:
— Capa do jornal? Onde? Me mostra!
Esse movimento quase fez ela escorregar dos meus braços, me assustando. Tive que segurá-la com mais força.
Lidar com uma bêbada é mesmo um exercício de resistência.
Em poucos minutos, eu já estava encharcada de suor, como se tivesse corrido uma maratona.
— Francisca, precisa de ajuda?
Uma voz suave soou atrás de mim, com um leve tom de brincadeira.
Virei-me para olhar.
Víctor Laranjeira estava debaixo do alpendre, sob a luz quente do teto. Parecia bem, com um brilho gentil nos olhos e um sorriso calmo nos lábios.
Por um instante, achei que estava vendo o Víctor de seis anos atrás.
Se ignorasse a sombra de cansaço em seu rosto, ele era idêntico ao homem que conheci há seis anos.
Perdi a conta das vezes em que ele ficou esperando calado na porta da minha empresa. Quando eu saía, ele simplesmente aparecia atrás de mim, chamando meu nome com delicadeza, oferecendo meu doce favorito, abrindo a porta do carro com aquele cuidado de sempre, me abraçando e dizendo que sentiu minha falta, muita falta.

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