Sebastião ficou atônito por um segundo antes de responder com a voz carregada de severidade:
— O meu irmão e a minha cunhada faleceram quando Kylen ainda era uma criança. Usar o nome deles para fazer chantagem? Eu seria um monstro se fizesse isso!
Ele sequer havia cogitado essa hipótese.
Alcides era seu filho; Kylen era seu sobrinho. Ambos eram descendentes da Família Lourenço. Eram todos crianças sob seus olhos!
Ele jamais apunhalaria o órfão Kylen apenas para salvar o próprio filho.
— Você é sempre assim! — Sylvia, lembrando-se do passado ao ver aquela atitude passiva, explodiu de raiva. — É por culpa desse seu jeito que o Alcides acabou seguindo esse caminho!
— Minha culpa? — Sebastião apontou para si mesmo, com os dedos trêmulos.
Ele sabia que havia sido negligente na criação de Alcides, e reconhecia sua parcela de responsabilidade pela ruína do filho. Porém, as palavras de Sylvia cravaram-se em seu peito como estacas de aço.
O olhar de Sylvia transbordava um sarcasmo venenoso.
— Dez anos atrás, quando Kylen voltou do exército, se você não tivesse concordado em devolver os negócios da Família Lourenço para ele e tivesse segurado tudo nas suas próprias mãos, o Alcides não teria se perdido na obsessão de alcançar o topo do Grupo Financeiro Lourenço!
— Foram a sua covardia, a sua devoção cega e a sua lealdade estúpida que destruíram o Alcides!
Sebastião bateu com força na mesa de pedra, o rosto vermelho de indignação.
— Absurdo!
— O império da Família Lourenço foi erguido com muito suor pelo meu irmão mais velho. Quando ele faleceu, o Kylen ainda era pequeno, por isso os negócios foram passados para mim como administrador temporário. Devolver o que era do Kylen por direito... Que erro há nisso?!
Ele apontou o dedo para Sylvia.
— Depois de todos esses anos, você ainda guarda rancor dessa história. Para mim, foi você quem envenenou a cabeça do Alcides e o empurrou para esse caminho sem volta!
— Sebastião, guarde a sua mediocridade para você e não tente arrastar os outros! — ela esbravejou. — Se não tem coragem de salvar o seu próprio filho, assuma. Não precisa jogar a culpa nas minhas costas.
— Vai sair? — Ela percebeu que Lúcio já estava de máscara novamente.
O homem assentiu, erguendo levemente o queixo na direção dela.
Alícia se explicou:
— Esqueci o celular. Só me dei conta no meio do caminho. Me espera um segundo, vou pegar e a gente desce junto.
Ela correu até a sala, pegou o celular na mesa de centro e voltou rapidamente para a porta.
— Não te disseram para evitar sair de casa agora? Aonde você vai? O Hélder e eu podemos te acompanhar.
O homem tirou o celular do bolso direito, digitou rapidamente na tela e mostrou a ela:
[Caminhar para fazer a digestão.]

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