— Por causa do sangue sujo que corre nas minhas veias, fui rejeitada pelo Miguel Arantes desde pequena. Ele me detestava, me maltratava, me batia e me xingava. Quando fiz dezoito anos, ele até tentou me obrigar a casar com um velho asqueroso. Quando eu recusei, ele me trancou e me deixou sem comida. Em comparação comigo, você é abençoada demais, feliz demais.
Se fosse a antiga Alícia ouvindo aquilo, certamente sentiria uma imensa pena de Yolanda. Contudo, ao escutar tais palavras agora, achou-as apenas patéticas: — E a sua infelicidade foi causada por mim?
— Não, não foi — respondeu Yolanda, respirando fundo. — Mas não estava bom para você ser a princesinha intocável da Família Lourenço? Por que você teve que roubar o Kylen de mim?
— Se eu me casasse com o Kylen, eu poderia finalmente ser feliz. Todo o meu passado ficaria para trás. Mas você teve que se intrometer!
Yolanda apoiou as duas mãos na cama com todas as forças, tentando desesperadamente se levantar.
Mas, mesmo que usasse cada resquício de energia a ponto de as veias de suas mãos saltarem, não conseguia se sentar. Lançou um olhar selvagem a Alícia e vociferou sua maldição mais perversa:
— Eu te odeio, Alícia! Eu queria que você morresse!
— Pá!
O estalo nítido de um tapa ressoou no rosto de Yolanda.
— E foi por isso que você me envenenou! — As águas até então plácidas dos olhos de Alícia agitaram-se, rasgando-se para revelar um ódio tão avassalador que parecia prestes a engolir Yolanda.
Yolanda riu, com o rosto banhado em lágrimas: — É, sim. Eu queria acabar com as duas vidas de uma vez. Quem diria que você seria tão difícil de matar? Mas pelo menos eu consegui impedir...
— Pá!
Com mais um tapa, Alícia fez sangue brotar no canto da boca de Yolanda, calando à força aquelas palavras venenosas. Ela sabia perfeitamente o que a outra planejava dizer.
Lembrar do sofrimento de Lan, com o corpinho de um bebê de um ano tendo o tamanho de um recém-nascido de seis meses, deixou em seu coração um buraco oco, como se tivesse sido arrancado.
Mas, graças a Deus, ele ainda estava vivo.
Ainda bem. Graças a Deus.
Ela poderia protegê-lo e cuidar dele pelo resto de sua vida.


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