O suor umedecia as têmporas de Alícia.
Seus lábios estavam inchados e o colarinho rasgado caía desleixadamente, incapaz de cobrir as manchas vermelhas espalhadas por seu colo.
Contudo, sua frase gelada e o sangue viscoso em sua mão despedaçaram por completo a atmosfera sedutora e voluptuosa do carro.
— O que você fez? — Kylen questionou rispidamente.
O desejo em seu olhar recolheu-se instantaneamente para as profundezas de suas íris escuras. Apenas o rubor nos cantos de seus olhos denunciava a paixão que havia sido acesa momentos antes.
O cheiro de sangue no interior claustrofóbico do carro ficava mais espesso, como um enxame de formigas a devorar os nervos.
Kylen agarrou a mão que sangrava e, ao mesmo tempo, viu a outra segurando o canivete suíço manchado de vermelho.
Seu olhar se contraiu subitamente.
Ela usara um método como aquele para se manter lúcida!
Preferia mutilar-se a deixar que ele a tocasse!
Uma fúria avassaladora incinerou a última gota de desejo nos olhos de Kylen, restando apenas um ressentimento afiado e amargo.
Ele arrancou-lhe o canivete das mãos e arremessou-o violentamente contra a porta. Com um estrondo, a lâmina rebateu e caiu no chão.
— Quer tanto assim que eu não te toque?
— Sim. — Ela respondeu com tanta tranquilidade, como se o homem à sua frente não passasse de uma ferramenta usada para saciar seu fogo.
Sem o canivete, sua mão ficou vazia.
Ela segurou as bordas do vestido rasgado e o puxou para cima, ocultando por completo a nudez exposta de poucos minutos atrás.
Ao ouvir aquela confirmação implacável, o rosto de Kylen escureceu de forma sepulcral.
Ele apertou com força o pulso da mão ensanguentada, rasgou um pedaço do tecido da saia dela e enfaixou o ferimento em sua palma.
A voz gélida, porém enfraquecida, de Alícia ressoou lentamente pela cabine:
— Eu pensei que fosse outra pessoa me beijando, me tocando, querendo me ajudar a aliviar isso... Se eu soubesse que era você, preferiria morrer...
— Alícia! — A expressão de Kylen tornou-se de um gelo absoluto, interrompendo-a asperamente.
— Alícia, você é inacreditável. — Cada sílaba escapou de sua garganta, cortante e arrastada.
Kylen apertou um botão no painel e ordenou friamente para quem estava ao volante, atrás da divisória: — Dirija. Vá para o hospital.
Assim que ele terminou de falar, a mulher em seus braços, que havia suportado o martírio da droga e o esfacelamento da própria sanidade, já não aguentou mais. Desmaiou, tombando inconsciente.
A respiração de Kylen pesou. Ele amparou a nuca de Alícia e a recostou em seu ombro.
A respiração dela estava tão fraca que, sem prestar atenção, parecia inexistente.
Seus braços, de sobressalto, apertaram-se num abraço mais firme em torno dela.
...
Já era tarde da noite quando Alícia despertou. Narciso Simões velava ao lado de sua cama, sem sair dali por um instante. Ao abrir os olhos, ele foi a primeira pessoa que viu.
— Narciso... Quem mandou você sair de...
No entanto, ela não conseguiu concluir a frase. Narciso a interrompeu: — Ainda precisa de um homem?

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