Alícia ficou perplexa, sem entender o que ele queria dizer.
Narciso tocou a testa dela, constatando que sua temperatura voltara ao normal, e disse: — Quando chegou ao hospital, você recuperou um pouco da consciência, mas foi exatamente no pico do efeito da droga. Enquanto era levada na maca para uma lavagem gástrica, você começou a berrar, exigindo que o médico lhe arranjasse um homem. Tomei um susto tão grande que tive vontade de tapar a sua boca.
Alícia não estava em seu juízo perfeito; como se lembraria daquilo?
Porém, ela recordava-se de ouvir Kylen mandar o motorista levá-la ao hospital antes de apagar dentro do carro.
— Foi o Kylen quem me trouxe? — Sua voz saiu seca e rouca.
Se não houvesse imprevistos, Kylen já deveria estar sob custódia policial.
Dentro do carro, sua única obsessão era não deixar Kylen tocá-la e, igualmente, não tocá-lo. Com o esforço absurdo de se manter lúcida e resistir à química em seu sangue, ela simplesmente havia esquecido a situação legal em que ele se encontrava.
— Não foi ele, foi o guarda-costas. — disse Narciso. — O irmão J levou você, mas foi interceptado pelo Kylen. Só que ele não pôde te trazer pessoalmente porque a polícia o deteve no meio do caminho.
Ele ajustou as cobertas de Alícia. — Pare de pensar em pessoas insignificantes. Você ainda não pode beber água. Tente dormir mais um pouco para recuperar a força.
A expressão de Alícia estava meio distante. Quando finalmente voltou a si, ela retrucou: — Não consigo dormir com você aqui.
— É só fechar os olhos. — Narciso estendeu a mão na intenção de cobrir as pálpebras dela para que descansasse em "paz".
Alícia desviou do seu toque. — Estou com medo de que seus intestinos saltem para fora. Volte para descansar, basta que o Hélder fique no hospital comigo.
Sua atitude deixava claro: se ele não saísse, ela não fecharia os olhos.
Narciso sabia que toda aquela teimosia era de quem comia muito churrasco no pão. Incapaz de vencê-la pela insistência, deu algumas instruções a Hélder e deixou o quarto, amparado pelos seguranças.
Quando teve certeza de que Narciso fora embora, Alícia chamou em direção à porta: — Hélder.
Faltavam-lhe as forças, de modo que sua voz não soou tão alta. Contudo, sendo praticante de artes marciais, a audição aguçada de Hélder permitiu que entrasse imediatamente.
Ela pensava que, se Lúcio fora resgatá-la, sabendo que ela dissera não querer ver Kylen pelo resto da vida, devido à sua índole e ao seu modo de agir, ele jamais a entregaria facilmente nas mãos daquele homem.
A menos que Kylen tivesse ferido Lúcio gravemente, impossibilitando-o de protegê-la.
Claro que existia uma outra hipótese.
Quando ela se inscreveu com sucesso no posto de correspondente no Reino Unido, além do Dr. Vargas e de Yolanda Arantes, o único que sabia era Lúcio. Nem mesmo o Diretor Barros sabia da verdade, descobrindo apenas depois que ela foi cortada do programa.
Yolanda com certeza faria de tudo para ocultar aquilo, além de convencer o Dr. Vargas a guardar segredo.
Como resultado, acabou sendo descoberta por Kylen.
A única variável de toda aquela história estava em Lúcio.
Seria possível que Lúcio trabalhasse para Kylen?

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