Alícia ajoelhou-se sobre uma grande rocha à beira-mar, jogando o último punhado de cinzas que restava em suas mãos nas águas do oceano.
— Pai, mãe, nunca mais ninguém vai usar vocês para me chantagear.
Daqui para frente, Kylen não teria mais nada para usá-la como refém.
Ela permaneceu ajoelhada na pedra por um longo tempo. Depois que as cinzas se dissiparam no mar, não era possível ver mais nada. Mas não importava; enquanto ela se lembrasse, seu pai e sua mãe viveriam para sempre em sua memória e em seu coração.
E isso, ninguém poderia tirar.
Com o aumento da temperatura e sendo fim de semana, a praia estava cheia de pessoas.
Alícia observou a multidão animada. A última vez que estivera ali fora na véspera de Natal, quando Lúcio Sequeira a levou para jogar flores no mar e fazer pedidos. Fazia menos de dez dias, mas ela sentia como se uma eternidade tivesse passado.
O celular em sua bolsa tocou. Ela o pegou e deu uma olhada; ironicamente, no exato instante em que pensou em Lúcio, ele havia mandado uma mensagem.
[Você está na praia?]
Era quase mágico.
Alícia ficou paralisada por um momento, apertou o celular e olhou ao redor, mas não viu nenhum rosto familiar, até ouvir o som de uma buzina do outro lado da rua. Ela se levantou e avistou um Mercedes Classe G estacionado ali.
Ela ergueu a mão para bloquear o sol. O vidro do carro baixou, revelando o homem no banco do motorista vestido de preto dos pés à cabeça, usando um boné escuro e uma máscara preta. Quem mais poderia ser além de Lúcio?
O homem abriu a porta, desceu, abaixou a aba do boné e caminhou em direção à praia com passos largos.
Mesmo a uma certa distância, o olhar do homem fixou-se nos olhos avermelhados dela.
— Lúcio, o que você faz por aqui? — Alícia foi rapidamente ao encontro dele, perguntando alegre.
O homem pegou o celular e, com as pontas dos dedos expostas pelas luvas pretas, digitou duas linhas na tela: [Estava resolvendo umas coisas por perto e vi alguém muito parecida com você.]
— Que coincidência enorme! Você não tinha saído? Voltou quando? — Alícia notou que a gola da camisa dele estava um pouco amassada.
Na sua memória, Lúcio era sempre frio, mas também impecavelmente asseado; todas as vezes que se viam, ele estava com as roupas arrumadas e limpas.
O que o teria feito sair com tanta pressa, a ponto de não se vestir direito?
Lúcio: [Faz pouco tempo.]
Lúcio olhou para baixo, como se estivesse perguntando se ela estava bem.
— Só estava pensando em umas coisas. — Alícia balançou a cabeça.
— Foi bem ali que fizemos os pedidos e jogamos as flores da última vez, você lembra? — Depois de caminharem mais um pouco, Alícia apontou para uma grande rocha não muito longe dali.
Lúcio olhou na direção apontada.
Depois, voltou um pouco o olhar para ela. A brisa do mar agitava suavemente seus cabelos, e algumas mechas passavam perto de seus olhos levemente avermelhados.
A mão caída ao lado do corpo cerrou-se de leve.
Quando ela olhou de volta para ele, ele assentiu naturalmente.
Ele tirou o celular do bolso e digitou algumas palavras: [Como você veio parar aqui sozinha?]
— Vim resolver uns assuntos antes de deixar Cidade Linvar. — Alícia olhou para a tela do celular de Lúcio, seu olhar hesitou por um segundo e ela deu um sorriso amargo.
Os trâmites da demissão ainda levariam algum tempo, mas a documentação do processo de divórcio já estava praticamente pronta. Só restava pedir uma hora de folga no dia seguinte para protocolar o pedido no balcão do fórum.

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