— Limpe isso — disse Yolanda, com uma suavidade estudada.
Alícia não aceitou o lenço. Apenas fixou o olhar em Yolanda, que vestia um luto impecável. As famílias Arantes e Lourenço mantinham laços antigos, então a presença dela ali não era nenhuma surpresa.
— Não há mais ninguém aqui. O seu teatro não tem plateia, Yolanda. Quando tiver tempo, vá tratar essa sua necessidade de atenção.
Yolanda ignorou o sarcasmo, mantendo a expressão de falsa incompreensão:
— A vovó gostava tanto de você... Por que não foi se despedir dela? Por que se escondeu?
E continuou, implacável:
— Quando perguntaram por você, sabe o que o Kylen respondeu?
Alícia ignorou e preparou-se para abrir a porta do carro e partir.
No entanto, a governanta de Yolanda, uma mulher robusta, segurou a porta, impedindo-a de entrar. Alícia, com sua compleição mais frágil, não tinha força para competir com ela.
Yolanda curvou os lábios num sorriso sutil:
— Kylen disse, na frente de todos, que a Família Lourenço não tem uma jovem senhora. Ele não reconhece você.
Foi nesse instante que Narciso surgiu, desferindo um chute brutal na governanta de Yolanda, afastando-a do veículo.
— Que mãos sujas são essas para ousar tocar na porta dela! — trovejou ele.
Narciso lançou um olhar gélido para Yolanda e zombou:
— O Kylen não a reconhece? Então me mostre ele reconhecendo você! Quem é você, uma insignificante, para vir aqui cantar vitória na frente dela?
Ele apontou para a mulher caída no chão:
— Pegue essa louca e suma daqui!
A governanta, atingida pelo chute, não ousou protestar ao reconhecer o Sr. Simões. Levantou-se humilhada, sacudindo a poeira, e correu para se esconder atrás de Yolanda.
Narciso fechou a porta do passageiro, deu a volta, assumiu o volante e arrancou com o carro, deixando as duas para trás.
...
Lívia foi sepultada ao lado do avô Lourenço, num jazigo que a família havia adquirido há muitos anos, no cemitério da zona leste da Cidade Linvar.
Em uma colina adjacente, longe da multidão, Alícia ajoelhou-se no chão, curvando a cabeça na direção onde o corpo de Lívia baixava à terra.
Narciso permaneceu ao lado dela, em silêncio respeitoso.
Quando ela finalmente se levantou, ele disse:
— Vou dar um pulo em casa para comer algo com o vovô e volto logo. Não saia daqui, entendeu?
Ele a fez sentar no sofá e ligou a televisão num canal que transmitia o especial de fim de ano.
Depois que Narciso saiu, Alícia permaneceu imóvel no sofá.
Na TV, as esquetes de humor arrancavam risadas da plateia.
O rosto de Alícia foi banhado pelas lágrimas. Este ano, não haveria mais a vovó ao seu lado, rindo das comédias até perder o fôlego.
Não sabia quanto tempo havia passado. Não assistiu a nenhuma cena na TV. Ficou ali, abraçada à almofada que Narciso lhe entregara antes de sair, com o olhar perdido, observando os fogos de artifício estourarem ao longe pela janela.
De repente, a campainha tocou.
Narciso tinha a senha e a biometria, não tocaria a campainha.
Ela se levantou e caminhou até a porta. Ao ver a silhueta no monitor, paralisou por um instante.
Abriu a porta e olhou, surpresa, para o homem alto e imponente, usando um boné preto e máscara escura.
Sua voz saiu rouca, sem forças:
— Lúcio Sequeira, o que você faz aqui?

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