Amanhã seria a véspera de Natal. Em épocas normais, a Mansão Lourenço estaria enfeitada com luzes e decorações festivas, mas agora estava imersa em um branco lúgubre.
O clima marcava dez graus negativos e as nuvens espessas não deixavam passar um raio de sol sequer.
As lajes de pedra do portão lateral da Mansão Lourenço eram duras e gélidas.
Alícia lembrou-se de quando a avó foi pessoalmente buscá-la na casa de um parente distante que a tratava como um fardo.
A avó a abraçou e disse, com o coração doendo: "Tão boazinha, e eles não a querem? Pois eu quero! Vou fazer com que abram bem os olhos e vejam que a Alícia é uma criança amada, que agora ela tem um lar!"
Quando soube que ela sofria bullying na escola, a avó "convidou" os pais daqueles alunos para um "chá" na mansão naquela mesma noite, e anunciou publicamente que o Grupo Lourenço jamais faria negócios com eles.
Quando ela teve febre e delirava chamando pela mãe, foi a avó, já com mais de sessenta anos, que passou a noite inteira abraçada a ela, dando remédio e fazendo compressas para baixar a temperatura.
Quando Alcides a intimidava, a avó o obrigava a gritar cem vezes "Tia-avó, eu errei" para ela, e ainda dizia: "Ele pediu desculpas, mas a nossa Alícia tem o direito de não perdoar."
O vestido que usou em sua festa de maioridade foi feito à mão pela própria avó, que estudou diversas revistas de moda com seus óculos de leitura para garantir que ela fosse a princesa mais deslumbrante e única da escola naquele dia.
A avó dizia: "O que as filhas dos outros têm, a nossa Alícia também terá, e terá ainda mais e melhor! Quem pode ser mais bonita que a nossa Alícia?"
Ela também dizia: "Alícia, lembre-se, você nunca foi um fardo. Você é um presente que os céus deram à vovó, o meu tesouro mais precioso."
Alícia recapitulava o passado repetidamente, tão imersa nas memórias que quase não conseguia sair delas.
— Alícia!
Uma voz urgente parecia vir de muito, muito longe.
— Alícia!
Narciso gritou novamente, mas a mulher ajoelhada no chão permanecia imóvel como uma estátua.
Ela vestia roupas tão finas, ajoelhada sobre a pedra fria. Narciso sentiu o coração doer só de olhar.
Ele caminhou a passos largos, tirando o sobretudo. Ao cobrir os ombros dela com o casaco, tentou levantá-la do chão.
De repente, sua mão parou.
— A vovó morreu, eu preciso ficar de joelhos. — murmurou ela, sem levantar a cabeça. — A vovó não queria me ver, então ficarei ajoelhada aqui. Ela me criou por tantos anos, eu devo me despedir dela.
Ele usava uma faixa preta de luto no braço, e sua expressão era gélida.
Ela recolheu o olhar apressadamente e encolheu-se de volta no esconderijo.
— Kylen, não fique tão triste. A vovó, lá no céu, certamente não gostaria de te ver sofrendo. Cuide-se.
Uma voz suave flutuou com o vento até os ouvidos de Alícia.
Pelo canto do olho, ela viu Yolanda sendo empurrada em uma cadeira de rodas pela babá.
Os familiares entraram nos carros e seguiram o veículo funerário rumo ao crematório.
Vendo os carros se afastarem, as lágrimas de Alícia caíram incontrolavelmente. Suas unhas cravaram na palma da mão para conter o impulso de correr atrás deles.
O som da cadeira de rodas se aproximou, e ela ergueu levemente o olhar.
Uma mão de pele lisa e macia estendeu-lhe um lenço azul.

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