Mas Alícia percebeu imediatamente, pensando que essas pessoas que vivem no submundo sempre têm seus tabus e segredos.
Ela olhou para ele com franqueza e apressou-se em dizer:
— Fui indelicada. Se não for conveniente...
O homem pegou o celular, tocou na tela algumas vezes e estendeu o aparelho diante dela.
"Lúcio Sequeira"
— Lúcio?
Alícia leu o nome dele sem perceber.
Embora o treinador parecesse não ser muito velho — segundo Hélder, por volta dos trinta anos —, ele era alto e corpulento. Com a máscara e o boné criando uma aura de "mantenha distância", ele exalava mistério.
O homem pegou o casaco e saiu. Quando Alícia terminou de tomar banho e saiu, ele já havia ido embora.
Alícia tirou a chave do carro da bolsa e caminhou em direção ao veículo, mas viu uma pessoa parada ao lado dele.
O vento estava forte naquela noite, soprando no rosto com um frio cortante. O homem estava parado ao lado da porta do carro dela, sem que ela soubesse há quanto tempo. Quando os olhares dos dois se cruzaram, um traço de calor passou pelo fundo dos olhos dele, e ele caminhou em direção a ela com suas pernas longas.
— Alícia.
Alícia olhou para Julian, surpresa.
— Julian, o que você faz aqui?
— Saí para jantar com amigos e vi seu carro aqui — disse Julian com naturalidade.
No entanto, o frio impregnado em seu corpo denunciava que ele estava esperando há algum tempo.
O coração de Alícia palpitou levemente. Ele ficou ali esperando no seco, sem ligar para ela? E se ela demorasse muito para sair? Ele teria ficado esperando o tempo todo?
Vendo que as bochechas dela ainda estavam um pouco coradas, os cabelos soltos e exalando o perfume suave de xampu, parecia que ela tinha acabado de se exercitar.
Julian instintivamente deu um passo à frente, bloqueando o vento para ela.
— Acabou de treinar, não pegue vento.
De Yolanda.
Por tantos anos, ela ignorara o número de Yolanda no WhatsApp. Não tê-la bloqueado foi um erro seu.
Ela não sabia quando Yolanda havia trocado a foto de perfil; não era mais o jasmim branco de antigamente.
A foto mostrava, de um ângulo traseiro lateral, as pernas longas de um homem vestindo calça social preta, esguias e retas, simplesmente perfeitas.
Alícia reconheceu na hora: eram as pernas de Kylen.
E Yolanda lhe enviara duas mensagens seguidas:
"Alícia, pretendo demolir a casa na árvore do quintal e reformar tudo. Afinal, essa já foi sua casa, então achei necessário te avisar para que você a veja uma última vez."
A imagem anexa mostrava um pequeno pátio silencioso e uma casa na árvore que, apesar de sofrer com o vento e a chuva por quase vinte anos, permanecia de pé.
A casa na árvore que seu pai, subindo e descendo escadas, construíra tábua por tábua com as próprias mãos!

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