— Se a Sra. Arantes quer tanto ficar, que fique de uma vez.
Uma voz preguiçosa e límpida veio do outro lado da sala de jantar.
Alícia tinha voltado apenas para buscar algo. Não esperava encontrar Kylen em casa, muito menos Yolanda.
E também não esperava que Kylen fosse tão insensível. A amiguinha de infância estava praticamente se jogando aos pés dele pedindo para dormir ali, e ele, bancando o recatado, a mandava embora. Era de rir.
Yolanda pareceu sentir-se humilhada pela frase, especialmente pelo olhar risonho de Alícia, carregado de sarcasmo.
Ela apertou os lábios e disse:
— Alícia, você entendeu errado. Eu não tinha intenção de dormir aqui.
Alícia deu de ombros.
— Ah, é? E daí?
— Já estou indo embora. — Yolanda olhou para o homem sentado à sua frente, cuja expressão permanecia apática, sem demonstrar qualquer reação ao retorno de Alícia.
— Kylen, lembre-se do que eu disse. Cuidado para não molhar a ferida.
Kylen soltou um "uhum" indiferente, fechou o jornal e lançou um olhar casual para Alícia.
Alícia olhou para ele no mesmo instante. Seus olhares se cruzaram abruptamente. Alícia soltou um riso anasalado e desviou o olhar.
— Se você vier amanhã, a ferida dele já vai ter cicatrizado.
Ao meio-dia ele estava ótimo. De onde tinha vindo aquele machucado?
Mas ela não pretendia perguntar. Ele tinha a amiguinha de infância para cobri-lo de cuidados; ela era apenas alguém que passava para pegar um pertence e ir embora.
Kylen observou as costas dela subindo as escadas, com o rosto levemente sombrio.
Alícia pegou o que precisava e desceu. Kylen estava parado no pórtico, apoiado na bengala, e o carro de Yolanda acabara de sair.
Ela não foi em direção a Kylen; em vez disso, abriu a porta lateral.
De repente, o celular dela e o de Kylen tocaram ao mesmo tempo.
Diante de tamanha coincidência, Alícia instintivamente olhou para Kylen, que também olhou para ela.
A tela do celular mostrava o número da Mansão Lourenço.
— Vamos para a casa do meu tio.
O carro entrou em uma mansão isolada.
A Família Vargas também era considerada rica na Cidade Linvar. Eder, embora fosse professor universitário, possuía ações da empresa da família, e seus dividendos anuais eram dezenas de vezes maiores que seu salário.
Por isso, seu padrão de vida era altíssimo.
Yolanda entrou na casa. Eder, ouvindo o barulho, desceu as escadas enquanto desenrolava as mangas da camisa.
— Não disse que viria amanhã?
Yolanda notou que os passos dele estavam um pouco descompassados. Sabia que sua visita não seria motivo para deixá-lo nervoso, então olhou involuntariamente para o topo da escada atrás dele, antes de desviar o olhar.
— Para evitar imprevistos, achei melhor vir logo resolver isso com o senhor. — O olhar de Yolanda varreu a manga da camisa dele, que estava molhada. — Alícia quer ir para a sucursal na Inglaterra. O senhor pode dar uma ajuda?
— Você quer ajudar a Alícia? — Eder parecia confuso.
Na época, Alícia havia se casado com o homem que Yolanda amava. Ela tinha ido para o exterior para curar as feridas do coração; como poderia ter superado isso tão facilmente?
— Eu sei o que o senhor está pensando.

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