Aquelas palavras obsessivas, ouvidas ao vivo, fizeram o coração de Enrique disparar de pavor.
Ele tentou aconselhar com paciência:
— Quando foi que ele já disse algo tão pesado assim? Esqueça isso, Julian. Apaixone-se por outra pessoa.
Enquanto falava, pegou o cotonete com um pouco de pomada para aplicar em Julian.
Mas a mão de Julian o afastou.
— Você acha que sou como você, que troca de mulher como quem troca de roupa, sem sentimento algum?
— Ei, você xingou o Kylen, não precisa me xingar também — Enrique reclamou, apontando o dedo para ele. — Se eu não tivesse interferido, você tem noção do quão feia a coisa teria ficado hoje? Já ouviu dizer que mulher de amigo é sagrada?
Embora ele conhecesse a versão cafajeste da frase — que mulher de amigo era pra ser talaricada.
Mas isso era algo que jamais poderia ser dito na frente de Julian.
Caso contrário, Julian perderia a cabeça de vez. E se Julian perdesse a cabeça, Kylen seria ainda pior, e aí adeus à cortesia entre os "irmãos".
Julian baixou os olhos para a própria mão. Havia uma ferida em seu rosto bonito e sereno.
— É impossível desistir da Alícia. Esperei três anos até que ela pensasse em desistir. Se o Kylen não se divorciar, eu o forçarei a isso.
Enrique arfou.
— Você ficou maluco de vez!
— Esqueça o Kylen por um minuto. E a Alícia? Ela sabe que você gosta tanto dela assim? Ela aceitaria você? Você sabe o preço que vai custar forçar o Kylen a um divórcio? E se no final ela não te aceitar, vai ter valido a pena?
Julian ficou em silêncio por um momento. Enrique achou que ele finalmente estava caindo em si.
Mas então Julian perguntou:
— Tem cigarro?
— Pra quê? Você não fuma.
Apesar de dizer isso, Enrique tirou o maço e o isqueiro do bolso.
Julian acendeu um cigarro.
— Se vale a pena ou não, sou eu quem decido.
Enrique quase acreditou que ele tinha recuperado o juízo!
Kylen não tocou nos talheres. Apenas sentou-se silenciosamente à mesa e folheou o jornal. Yolanda sempre soube que ele tinha esse hábito à moda antiga, em parte porque agredia menos os olhos do que telas eletrônicas.
— A Alícia realmente não vai voltar a morar aqui? — perguntou ela, tomando a sopa, como quem não quer nada.
Kylen não levantou os olhos. Disse com indiferença:
— Por que falar dela?
Yolanda hesitou por um instante, não disse mais nada e continuou a tomar a sopa.
O clima na sala de jantar era de absoluto silêncio.
Após o jantar, Yolanda olhou pela porta de vidro que dava para o jardim. Chovia, e as luzes externas pareciam cobertas por uma fina camada de gaze. Ela suspirou:
— A chuva apertou.
Só então Kylen ergueu o olhar.
— Sim. Volte logo para casa.
Yolanda apertou os dedos. Será que ele realmente não tinha entendido a insinuação?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Adeus, Meu Ontem!