Só ao cair da tarde é que Yolanda soube que, por volta do meio-dia, Kylen havia agredido Julian dentro do hospital.
Imediatamente, ela ordenou à babá que preparasse o carro para levá-la ao Jardim Sombrio.
No caminho, pensou em ligar para Enrique, mas logo desistiu. Embora Enrique tivesse a língua solta para a maioria das coisas, quando o assunto envolvia Kylen e seus irmãos, ele era um túmulo. Certamente, ela não conseguiria arrancar nenhuma informação dele.
— Onde exatamente o Diretor Lourenço agrediu o Dr. Gonçalo hoje? — perguntou ela ao segurança sentado no banco do passageiro.
O segurança respondeu:
— Foi na ala de otorrinolaringologia do hospital do Grupo Financeiro Lourenço. Só se fala que o Diretor Lourenço agrediu o Dr. Gonçalo, mas ninguém sabe os detalhes.
Otorrinolaringologia...
Sussurrando essa palavra em sua mente, a imagem de Alícia surgiu nos pensamentos de Yolanda.
Era isso. Hoje era o dia em que Alícia faria a revisão da perfuração no tímpano.
Como ela pôde ter esquecido?
Kylen sempre valorizou a lealdade e a fraternidade, tratando Julian e Enrique extremamente bem. O mundo exterior dizia que os três eram os verdadeiros irmãos, enquanto Alcides parecia um estranho.
Ele jamais bateria em Julian sem motivo e, mesmo se houvesse algum problema, dificilmente chegaria às vias de fato.
A única explicação plausível era que Julian havia confessado seus sentimentos por Alícia na frente de Kylen.
Ela sabia há muito tempo que Julian gostava de Alícia. Ele era excessivamente cauteloso com esse sentimento; se ela não tivesse descoberto por acaso uma vez, jamais teria notado.
A capacidade de observação de Kylen era muito mais aguçada que a dela. Talvez ele já desconfiasse, mas como Julian nunca demonstrara nada abertamente, ele deixava passar.
A possessividade de um homem sobre uma mulher não seria suficiente para fazer Kylen partir para a agressão física, e Alícia certamente não faria nada para desonrar Kylen durante o casamento.
O que, então, o fez perder a compostura dessa maneira?
Ao pensar em uma possibilidade, um brilho gélido e sinistro cruzou o olhar de Yolanda.
Antes de entrar no Jardim Sombrio, o carro foi interceptado na guarita.
O vidro abaixou e Yolanda virou-se para o segurança que os barrava.
— Sou Yolanda. Vim ao Jardim Sombrio ver o Diretor Lourenço.
Chovia lá fora e, como o sistema da garagem subterrânea do Jardim Sombrio não reconhecia o carro de Yolanda, ela teve que parar no pórtico da entrada principal.
O segurança desceu com um guarda-chuva, a babá tirou Yolanda do carro e a colocou na cadeira de rodas, empurrando-a logo em seguida para dentro da mansão.
Dona Maisa ouviu o barulho e, pensando ser Alícia quem retornava, saiu sorrindo enquanto enxugava as mãos e dizia:
— Senhora, você...
Mas não viu Alícia. Em vez disso, deparou-se com uma mulher desconhecida sentada em uma cadeira de rodas.
Tinha cerca de vinte e poucos anos, feições delicadas e suaves.
Dona Maisa compreendeu imediatamente. Aquela devia ser a famosa Yolanda.
O sorriso em seu rosto desapareceu, substituído por uma polidez formal:
— Sra. Arantes, o que a traz aqui?
— Onde está Kylen? — Yolanda ergueu ligeiramente o queixo. Sua atitude não chegava a ser arrogante, mas exalava uma aura de inalcançável superioridade.

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