Dona Maisa nunca havia sido tratada dessa forma naquela casa.
Nem precisava mencionar Alícia, que tinha um temperamento maravilhoso, uma personalidade vivaz, generosa e bondosa. Ela não possuía nenhum ar de superioridade de patroa e, às vezes, até agia com carinho, tratando Dona Maisa como uma verdadeira tia.
Kylen, embora fosse mais frio, sempre a tratava com cortesia e nunca lhe dava ordens aos gritos.
Mas, afinal, ela já tinha cinquenta anos e vira de tudo nessa vida.
— O Sr. Lourenço está no escritório. Quando chegou, instruiu-me que ninguém deveria incomodá-lo.
Yolanda captou a insinuação nas palavras de Dona Maisa e soltou uma risada leve.
— Dona Maisa, não é?
— Sim, Sra. Arantes.
— Não tem problema que você não me conheça, mas da próxima vez, não aja assim.
Ela desviou o olhar, ignorando a barreira imposta pela governanta, e fez um gesto para a babá:
— Vamos subir.
Vendo a cadeira de rodas de Yolanda avançar em direção ao elevador, Dona Maisa apressou-se para tentar impedi-la, mas mal deu um passo à frente e foi bloqueada pelo segurança de Yolanda.
— O que está acontecendo aqui?
De repente, uma voz gélida ecoou.
— Kylen! — Yolanda virou-se, surpresa e feliz ao ver Kylen na escada.
Ela manobrou a cadeira de rodas, que deslizou automaticamente até a base da escada.
Erguendo o rosto para olhar o homem que descia apoiado em sua bengala, ela olhou de volta para Dona Maisa e disse com voz suave:
— Eu queria subir para ver você, mas a Dona Maisa me impediu. Eu estava tão preocupada com você que perdi a compostura e pedi para a segurarem. Nós incomodamos você?
Dona Maisa ficou espantada. Aquela Sra. Arantes era terrível. Com meia dúzia de palavras, explicou a situação colocando-se como alguém que errou por excesso de zelo, transformando a governanta em uma empregada sem noção que barrava as visitas do patrão.
Alguém tão direta e honesta como a sua patroa jamais conseguiria competir com uma pessoa assim.
Dona Maisa permaneceu parada, de cabeça baixa.
Yolanda era a principal socialite da Cidade Linvar. Mesmo com a deficiência nas pernas, era uma jovem de família rica e excelente educação; jamais perderia a compostura.
Sua cadeira de rodas aproximou-se do sofá. Dona Maisa trouxe duas xícaras de chá, colocando uma diante de Yolanda e outra diante de Kylen.
— Dona Maisa — chamou Yolanda. — Tem uma caixa de primeiros socorros em casa? Por favor, traga algo para contusões, a mão do Kylen está machucada.
— Ah, tem sim.
Só então Dona Maisa notou o ferimento na mão de Kylen e correu para buscar a pomada.
Mas antes que pudesse entregar o remédio a Kylen, Yolanda o pegou.
— Deixa comigo.
Yolanda aproximou a cadeira de Kylen, seus joelhos quase se tocando.
Ela estendeu a mão gentilmente:
— Kylen, deixa eu passar o remédio para você.

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