Ao chegar à porta da sala de otorrino, Alícia parou e disse a Julian: — Eu posso entrar sozinha, Julian, pode ir cuidar das suas coisas.
Antes da noite anterior, sempre que ela o chamava de Julian, ele sentia que as coisas entre eles ainda eram como antigamente.
Mas depois que seus sentimentos foram expostos diante de Kylen, Julian sentiu que havia surgido uma conexão inexplicável entre ele e Alícia.
Uma conexão que atravessava três anos, e que ele não queria perder novamente.
Ele parou, sorriu e assentiu. — Tudo bem.
Alícia entrou na sala de exames e, seguindo as instruções do médico, deitou-se de lado na maca, aguardando a endoscopia auricular.
Embora já tivesse passado por aquilo uma vez, ao ver o médico segurando o fino instrumento de dois ou três milímetros de diâmetro, a ideia de aquilo entrando em seu canal auditivo fez seu couro cabeludo se contrair involuntariamente.
— Não se mexa.
De repente, uma palma grande e morna apoiou suavemente a parte de trás da cabeça dela, e uma voz aveludada lembrou: — Não vai doer.
Alícia paralisou.
A tela desligada à sua frente refletiu a figura elegante de Julian.
Naquele momento, ele havia tirado o jaleco branco; não estava ali como médico.
Julian sentiu a rigidez dela. Os dedos da mão que apoiava a cabeça dela moveram-se levemente num gesto de conforto, enquanto ele virava o rosto para instruir o médico: — Pode começar.
— Certo, Dr. Gonçalo.
Para não atrasar o exame, Alícia não disse nada e fechou os olhos silenciosamente.
Mas, ao fechar os olhos, seus outros sentidos ficaram mais aguçados. No instante em que o instrumento fino entrou no canal auditivo, ela instintivamente agarrou o forro da maca, franziu as sobrancelhas, e seus cílios longos e curvos tremeram.
Naquele momento, a porta da sala de exames foi empurrada levemente de fora, como se quem entrasse não quisesse perturbar quem estava dentro.
Uma mão de ossos bem definidos segurou a maçaneta. Ao ver a cena lá dentro, os dedos se fecharam centímetro por centímetro, as juntas ficando brancas de tensão.
— Tudo bem, vá lá — respondeu Alícia em voz baixa.
Quando o médico retirou o endoscópio do ouvido de Alícia, ela soltou um suspiro de alívio. Virou-se agilmente para sentar, mas só então lembrou que sua cintura estava dolorida, tarde demais para evitar o movimento.
Ela inspirou fundo, xingando mentalmente.
De repente, uma mão segurou sua cintura, firmando seu corpo trêmulo.
Um aroma frio, como névoa da floresta, flutuou até ela.
Era muito parecido com o cheiro que emanava da caixa de madeira naquela manhã.
Alícia ficou rígida, fingiu não notar e, sem levantar a cabeça, calçou os sapatos. — Doutor, como está minha situação?
— A perfuração está quase cicatrizada. Não será mais necessário usar medicação. Como está a audição da Sra. Serra ultimamente? Ainda ouve zumbidos com frequência?

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