POV / CHRISTIAN
A primeira fotografia mostrava um registro antigo. A segunda, uma referência posterior à mesma operação, mas com uma descrição que não permitia identificar claramente o destino de todos os recursos.
Aquilo não provava nenhuma fraude.
Poderia haver documentos complementares, ajustes contábeis ou informações que Sakura simplesmente não tinha encontrado.
O problema era que eu já havia visto referências semelhantes naquela semana.
— Posso ampliar esta aqui?
— Claro.
Aproximei a imagem e conferi o nome de uma empresa vinculada à operação.
Cocei a cabeça.
— Que foi? — Sakura perguntou.
— Estou tentando lembrar onde vi esse nome.
— Na Blackwood?
— Possivelmente.
Passei para outra fotografia.
— Essas informações são de quando?
— De vários períodos. Separei as datas para não misturar tudo.
Ela abriu outra pasta.
Sakura havia organizado as imagens por ano, com pequenas anotações sobre os documentos que encontrara.
Olhei para ela.
— Você fez tudo isso para um trabalho da faculdade?
— Eu levo meus trabalhos a sério.
— Estou percebendo.
— E também sou curiosa.
— Isso me preocupa um pouco mais.
Ela sorriu, mas logo ficou séria.
— Christian, tem outra coisa.
Apoiei o celular sobre a mesa.
— Pode falar.
— Enquanto pesquisava a história da Blackwood, encontrei algumas notícias antigas sobre a família.
— Que notícias?
— Sobre o acidente de dez anos atrás.
Minha expressão mudou.
— Que acidente?
Sakura me encarou.
— Christian, você sabe de qual acidente estou falando.
Apoiei as costas na cadeira.
— Continua.
— Aquele em que morreram os pais do Rocco e do Ravi. E a mãe da Sky e da Moon.
Não respondi.
— Eu sabia que tinha acontecido um acidente, mas não conhecia todos os detalhes — ela continuou. — Nas notícias antigas, encontrei o nome de Otávio Bittencourt.
Meu estômago se contraiu.
— O que você leu sobre ele?
— Que foi responsabilizado pelo acidente.
Observei Sakura por alguns segundos.
— Onde encontrou essa informação?
— Em matérias antigas. Algumas falavam da investigação, outras repetiam a versão de que ele tinha provocado a tragédia.
— E você acredita nisso?
Ela franziu a testa.
— Eu não estava lá, Christian. Como vou saber?
A resposta me surpreendeu.
— Então por que está falando comigo sobre isso?
— Porque agora acho que entendo algumas coisas.
— Que coisas?
Sakura colocou o celular sobre a mesa.
— A maneira como sua família trata a Sky.
Fiquei em silêncio.
— Eu sabia que existia alguma implicância com ela, mas nunca entendi direito o motivo. Até porque a Sky trabalha na empresa do Rocco e sempre levou o concurso muito a sério.
Ela fez uma pausa.
— Só que, depois de descobrir que o pai dela foi responsabilizado pelo acidente que matou os pais do Rocco, comecei a entender por que alguns Blackwood detestam tanto o sobrenome Bittencourt.
Passei a mão pelo queixo.
— Sakura...
— Não estou dizendo que eles têm razão — ela se apressou em esclarecer. — Estou dizendo que agora consigo entender de onde vem essa hostilidade.
Ela tomou um gole de café.
— Lembra quando a Sky foi expulsa do quarto do Rocco no hospital?
Assenti.
— Pois é. Aquilo me deixou muito revoltada. A menina estava desesperada, querendo saber se o homem que ama ia ficar bem, e trataram ela como se não tivesse o direito de estar ali.
Sakura balançou a cabeça.
— Agora imagino que tenha alguma relação com o acidente. Para sua família, a Sky deve representar uma lembrança muito dolorosa.
Olhei novamente para as fotografias.
— É uma história complicada.
— Eu percebi.
— E não conhecemos todos os detalhes.
— Exatamente! — Ela apontou para mim. — É isso que estou tentando dizer. Eu encontrei notícias, Christian. Não encontrei a verdade inteira.
Fiquei observando-a.
Sakura era mais esperta do que muita gente imaginava.
E, aparentemente, tinha uma habilidade preocupante para encontrar informações que outras pessoas preferiam ignorar.
— Você mostrou isso para alguém?
— Não.
— Nem para o Nathan?
Ela hesitou.
Foi rápido, mas percebi.
— Não — respondeu.
— Certo.
Devolvi o celular.
— Sakura, vou verificar essas informações. Mas quero que você pare de procurar documentos por enquanto.
Ela franziu a testa.
— Por quê?
— Porque não sabemos o que significam. Se houver alguma irregularidade nos registros financeiros, é melhor deixar a equipe de auditoria trabalhar.
— Eu só estava pesquisando.
— Eu sei. E agradeço por ter me procurado.
Ela cruzou os braços.
— Você está falando comigo como se eu tivesse invadido o sistema da empresa.
— Você invadiu?
— Christian!
Levantei as mãos.
— Estou perguntando!
— Não!
— Ótimo. Porque já tenho problemas suficientes.
Sakura soltou uma risada, mas logo voltou a olhar para o celular.
— E sobre o acidente?
— O que tem?
— Você não acha estranho que a Sky e a Moon tenham que lidar com tanta hostilidade por uma coisa que aconteceu quando elas eram crianças?

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