POV/ SAKURA
Pouco tempo depois, Nathan perdeu os pais.
A notícia chegou numa manhã em que eu estava sentada à mesa da cozinha, tentando terminar uma atividade enquanto Diego preparava café antes de sair para trabalhar. Meu irmão já estava vestido, com os óculos no rosto e o celular apoiado perto da cafeteira, reclamando de alguma alteração que Rocco tinha pedido no dia anterior.
Eu prestava pouca atenção. Estava cansada, ainda tentando me acostumar com a quantidade de exames que tinha feito nas últimas semanas e, principalmente, tentando não pensar demais na noite da formatura.
Nathan não tinha voltado a falar sobre aquilo.
Eu também não.
Ele continuava aparecendo em casa, mas nunca ficávamos sozinhos por muito tempo. Quando nossos olhos se encontravam, eu lembrava do primeiro beijo, dos nossos dentes batendo, da risada dele e de tudo que tinha acontecido depois. Então lembrava que Nathan tinha pedido segredo e que aquilo não podia se repetir.
Naquela manhã, o celular de Diego tocou.
Meu irmão olhou para a tela e atendeu normalmente:
— Fala, Nathan.
Não sei o que ouviu do outro lado.
Só sei que a expressão dele mudou.
Diego largou a colher sobre a bancada e ficou completamente parado enquanto escutava. Depois tirou os óculos e apertou os olhos com os dedos.
— Onde você tá? — perguntou, já procurando as chaves sobre a mesa.
Nathan respondeu alguma coisa.
— Não sai daí. Eu tô indo.
Levantei da cadeira.
— O que aconteceu?
Diego ergueu a mão para que eu esperasse e continuou falando ao telefone:
— Não, eu não vou ligar pra ninguém agora. Só fica aí, tá? Nathan, escuta o que eu tô falando. Fica aí. Eu chego em minutos.
Ele desligou.
Eu já estava de pé.
— Diego?
Meu irmão ficou alguns segundos olhando para o celular.
— Os pais do Nathan morreram.
Senti meu estômago afundar.
— O quê?
— Os dois.
Aquela palavra me atingiu de um jeito que Diego provavelmente não percebeu.
Os dois.
Eu conhecia aquilo.
— Foi acidente?
Diego passou a mão pelo rosto.
— Não.
Esperei que explicasse, mas ele parecia procurar uma maneira de fazer aquilo sem tornar tudo ainda pior.
— O pai dele descobriu uma traição. — Diego pegou as chaves. — Matou a mãe dele e depois se matou.
Fiquei olhando para meu irmão.
Não consegui responder.
Nathan tinha perdido os dois pais de uma vez, mas não como eu tinha perdido os meus. Não havia acidente, hospital ou aquela esperança idiota de que alguém pudesse ter sobrevivido. O próprio pai tinha provocado tudo.
Pensei em Nathan atendendo aquele telefone, recebendo a notícia ou descobrindo o que tinha acontecido. Pensei nele sozinho.
— Eu vou com você.
— Não vai.
— Diego...
— Sua imunidade tá baixa, Sakura. Eu nem sei como tá a situação lá ainda.
— Ele precisa da gente.
— Eu sei. Por isso eu tô indo.
Aquilo me irritou.
— E eu sou o quê?
Diego fechou os olhos por um instante e respondeu com mais paciência:
— Minha irmã, que tá esperando avaliação pra um transplante e não pode entrar em qualquer lugar porque resolveu que quer ajudar alguém. Eu vou ver o Nathan, descubro o que aconteceu e te ligo.
— Mas...
— Sakura, por favor.
Parei.
Diego raramente dizia por favor quando estava naquele estado.
Ele veio até mim, segurou meus ombros e abaixou um pouco o rosto.
— Eu sei que você gosta dele.
Meu coração quase parou.
Por alguns segundos, achei que Diego soubesse de tudo.
— Ele é meu amigo — respondi depressa.
Diego não pareceu perceber nada estranho.
— Eu sei. E eu vou ficar com ele.
Assenti.
Meu irmão beijou minha testa e saiu.
Passei o restante daquela manhã com o celular na mão.
Mandei uma mensagem para Nathan. Apaguei antes de enviar. Escrevi outra. Apaguei também.
O que alguém dizia numa situação daquelas?
Eu sabia como tinha odiado ouvir que meus pais estavam em um lugar melhor. Sabia como tinha detestado gente dizendo que Deus tinha um propósito, que o tempo curava ou que eu precisava ser forte por Diego.
Não queria fazer aquilo com Nathan.
No fim, mandei apenas:
Eu tô aqui.
Ele não respondeu.
Diego voltou para casa somente no dia seguinte.
Parecia ter envelhecido alguns anos durante a noite. Jogou as chaves sobre a mesa, tirou os óculos e afundou no sofá.
— Como ele tá? — perguntei.
— Uma merda.
Sentei ao lado dele.
— Ele perguntou por mim?
Diego demorou um pouco para responder:
— Ele não perguntou por ninguém.
Aquilo doeu, embora eu soubesse que não deveria.
— Ele tá sozinho?
— Eu fiquei com ele.
Claro.

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