POV / CHRISTIAN
Cheguei em casa depois das nove da noite.
Estava tão cansado que precisei permanecer alguns segundos dentro do carro antes de reunir disposição para entrar.
O encontro com Sakura tinha acrescentado mais perguntas à minha lista, e eu passara boa parte do caminho pensando nos documentos que ela me mostrara.
Não podia afirmar que existia uma fraude.
Também não podia ignorar as diferenças entre os registros.
O problema era que as informações públicas sobre a Blackwood estavam espalhadas por anos de notícias, comunicados e relatórios incompletos. Algumas matérias repetiam dados de outras publicações, enquanto determinados investimentos apareciam sem explicações suficientes sobre sua estrutura.
Eu conhecia a administração atual.
Não conhecia pessoalmente todas as decisões tomadas no Brasil durante o período em que estive na Inglaterra.
E não seria justo acusar ninguém com base em fotografias e notícias antigas.
Precisava dos documentos originais.
Precisava do resultado da auditoria.
E precisava conversar com Otávio.
Entrei em casa e encontrei Heitor sentado numa poltrona da sala, lendo alguma coisa no tablet.
— Boa noite, vô.
Ele levantou a cabeça.
— Christian. Chegou tarde.
— Tive algumas reuniões.
— Na empresa?
— Uma parte delas.
Afrouxei a gravata e me aproximei do aparador.
— A vó já dormiu?
— Foi se deitar há pouco. O Ravi está no quarto.
Assenti.
— Ela estava muito abalada no hospital.
Heitor soltou um suspiro.
— Helena está sensível por causa do Rocco.
— Eu sei. Mas acho que ela precisa descansar.
— Também acho.
Peguei um copo de água.
— O Lorenzo comentou que o senhor foi à empresa hoje.
— Fui cobrar informações da auditoria.
Olhei para ele.
— Os auditores ainda estão trabalhando.
— Estão demorando demais.
— É uma revisão de vários anos, vô. Não podemos exigir que terminem tudo em dois dias.
Ele apoiou o tablet no braço da poltrona.
— A empresa precisa de respostas.
— Concordo. Mas precisamos de respostas corretas.
Heitor me observou por alguns segundos.
— Você anda muito desconfiado, Christian.
Tomei um gole de água.
— Sou responsável por parte da administração. É meu trabalho fazer perguntas.
— Não estou criticando.
— Eu sei.
Meu celular vibrou.
Era uma mensagem da equipe responsável pelo acompanhamento de Otávio.
O médico informava que ele estava estável e continuava pedindo notícias das filhas.
Li a mensagem duas vezes.
Precisava ir até lá.
E não podia continuar adiando.
— Com licença, vô. Preciso resolver uma coisa.
Heitor voltou a pegar o tablet.
— Pode atender.
Afastei-me até a janela e liguei para o médico.
Ele atendeu depois de alguns toques.
— Boa noite, senhor Blackwood.
— Boa noite, doutor. Recebi sua atualização.
— Está tudo bem com o paciente.
— Ótimo. Preciso marcar uma reunião presencial.
— Quando?
Olhei discretamente para Heitor.
Ele continuava sentado, mas eu não queria que ouvisse o nome de Otávio.
— Daqui a três dias. No escritório que combinamos, na região metropolitana.
O médico demorou um instante para responder.
— Entendi.
— Pode ser às dez horas?

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